COMO OS OBJETIVOS DA PSICOTERAPIA PSICODRAMÁTICA SÃO PERCEBIDOS NA PERSPECTIVA DO PACIENTE

MARIA DE FÁTIMA NOVAES MARINHO

 

 

 

COMO OS OBJETIVOS DA PSICOTERAPIA PSICODRAMÁTICA SÃO PERCEBIDOS NA PERSPECTIVA DO PACIENTE

Universidade São Marcos

São Paulo
2000
MARIA DE FÁTIMA NOVAES MARINHO

 

OMO OS OBJETIVOS DA PSICOTERAPIA PSICODRAMÁTICA SÃO PERCEBIDOS NA PERSPECTIVA DO PACIENTE

 

Dissertação apresentada à Universidade São Marcos, como um dos requisitos à obtenção do grau de mestre em psicologia, sob a orientação do Professor Doutor Christian Ingo Lenz Dunker


Universidade São Marcos
São Paulo
2000
RESUMO
Este trabalho buscou avaliar até que ponto os objetivos do psicodrama tal como foram delineados por Moreno estão sendo atingidos na psicoterapia psicodramática contemporânea.

Primeiramente, foram definidos os objetivos centrais da psicoterapia psicodramática: o resgate da espontaneidade, o desenvolvimento de relações télicas e a catarse de integração.

Em seguida, foram realizadas três entrevistas despadronizadas com adultos que realizaram no mínimo dois anos de psicoterapia psicodramática. Foi feita uma análise qualitativa do material coletado, visando compreender em que medida os objetivos psicodramáticos foram atingidos nas psicoterapias citadas.

A análise das entrevistas apontou para uma relação de interdependência entre a utilização do método dramático e a consecução de seus respectivos objetivos.

ABSTRACT

This work has search for evaluate how far the objectives of psychodrama, just as ware delineated by Moreno, are being reached in the contemporary psychodramatic psychotherapy.

Firstly, it was defined the main objectives of the psychodramatic psychotherapy: the rescue of the spontaneity, the development of telic
relationships and the integration catharsis.

Then, it was done three interviews without standard with adults who attended al least for two years psychodramatic psychotherapy. It was conducted a qualitative analysis of the collected material, trying to understand how far has the psychodramatic objectives reached on the quoted psychotherapy.

The interview analysis has pointed to an interdependence relation between the dramatic method utilization and the attainment of its respective objectives.

 

Agradecimentos
Ao meu orientador, Christian Ingo Lenz Dunker, por me interrogar criativamente tantas e tantas vezes sobre o meu trabalho.

À Heloísa Junqueira Fleury pelo carinho e atenção que sempre me dispensou e pelos questionamentos e sugestões que fez em relação à parte teórica deste trabalho.

À Rosa Cukier por ter encontrado tempo para ler e comentar meu trabalho mesmo com tantos compromissos.

A meu filho, Guto, pelas surpresas que me proporciona a cada dia.

A meu marido, Sergio, por seu grandioso amor.

À Branca Brener por ser a grande amiga de todas as horas.

Aos meus pais, que sempre valorizaram o ato de estudar, apesar da pouca oportunidade que tiveram para fazê-lo.

Às minhas hermanas pelo companheirismo.

Ao Luís e à Lilian por serem sempre muito solícitos.

À Celina pelas contribuições que deu quanto à redação final deste texto.

À Maria Rita Seixas, Marisa Todescan e Joaquim pelas sugestões dadas em meu exame de qualificação.

Às entrevistadas pelo tempo e pela atenção dispensada.

À Rosane Landman, pelo carinho e ajuda.

A Antonio Ferrara, por ter sanado várias dúvidas.

Sumário:


Introdução 7
CAPÍTULO I : ASPECTOS HISTÓRICOS DO PSICODRAMA NO BRASIL 13
CAPÍTULO II: OBJETIVOS DA PSICOTERAPIA PSICODRAMÁTICA 21
2.1. O resgate da espontaneidade 21
2.2. O desenvolvimento de relações télicas 29
2.2.1. Discussões referentes ao conceito ‘tele’ 35
2.3. A catarse de integração 41
CAPÍTULO III: CONCEITOS QUE REPRESENTAM O MODO PELO QUAL O PSICODRAMA ATINGE SEUS OBJETIVOS 47
3.1. A matriz de identidade 47
3.2. As técnicas psicodramáticas 51
3.3. O desenvolvimento de papéis 54
CAPÍTULO IV: MÉTODO 58
4.1. Critérios para escolha de sujeitos 60
4.2. Forma de localizar os sujeitos 63
4.3. A entrevista 65
4.4. A postura do pesquisador durante a entrevista 70
4.5. Análise 74
CAPÍTULO V 76
ANÁLISE DAS ENTREVISTAS 76
5.1. MARÍLIA 76
5.1.1. Impressões gerais 91
5.2. Mônica 95
5.2.1. Impressões gerais 118
5.3. SARAH 122
5.3.1. Impressões gerais: 138
CAPÍTULO VI : DISCUSSÃO 142
6.1 Dos objetivos psicodramáticos 142
6.2 DO MÉTODO PSICODRAMÁTICO 153
6.3. DAS TÉCNICAS PSICODRAMÁTICAS 157
6.4 DA POSTURA HUMANA DO PSICOTERAPEUTA 158
Considerações finais 162
BIBLIOGRAFIA 175

Introdução

Moreno escreveu várias vezes que não gostaria de que o psicodrama se tornasse uma conserva cultural cristalizada. Ao contrário, ele sempre incentivou o desenvolvimento da criatividade e da espontaneidade em todas as áreas e em todos os lugares. Percorreu o mundo procurando divulgar o psicodrama e iniciar uma revolução criadora. Esta pesquisa pretende justamente ser um ato criador e espontâneo, que propicie compreender o psicodrama por um novo ângulo: o do paciente.

O tema escolhido é a correlação entre os objetivos propostos pelo psicodrama em Moreno e as transformações propiciadas pela psicoterapia psicodramática de adultos, ou seja, entre aquilo que é definido em termos teóricos como sendo as metas almejadas pelo psicodrama e as transformações observadas por pacientes que se submeteram a essa modalidade de psicoterapia. Portanto, podemos dizer que este trabalho visa estabelecer uma ponte entre vivência e teoria psicodramática e avaliar até que ponto os objetivos psicodramáticos são atingidos na prática contemporânea.

O que me motivou a pesquisar este tema foi a impressão que tenho tido de que muitos psicodramatistas estão se distanciando da proposta psicodramática formulada por Moreno, tanto no que diz respeito à sua concepção de homem quanto à teoria da técnica desenvolvida por ele. Isso a meu ver poderia constituir uma descaracterização do psicodrama enquanto tal; por outro lado todo projeto clínico se transforma face à cultura e à época em que se instala.

Em relação aos objetivos psicodramáticos, cabe ressaltar que procurei defini-los primeiramente a partir da obra de Moreno, procurando ser o mais fiel possível ao pensamento original do fundador do psicodrama. Entretanto, sabemos que uma mesma obra dá margem a interpretações diversas, sendo assim, quando as divergências de interpretação eram mais significativas e de maior repercussão, procurei fazer menção a elas para que pudessem ser consideradas. Procurei também apontar as contribuições dadas acerca do tema por psicodramatistas atuais.

Acredito que o tema escolhido é relevante porque através dele poderemos alcançar uma melhor compreensão dos resultados obtidos em uma psicoterapia psicodramática de adultos. Além disso, creio que este estudo traz em si uma peculiaridade, que é pesquisar esses efeitos a partir do ponto de vista e da avaliação do próprio cliente e não do ponto de vista do psicoterapeuta. Muitos psicodramatistas já analisaram os resultados obtidos através do psicodrama, utilizando-se da descrição de sessões de psicodrama ou ainda de processos psicoterápicos, procurando relacionar aquilo que percebiam com o arcabouço teórico moreniano. Entretanto, a meu ver, falta ainda avaliarmos esses resultados a partir da apreciação do próprio cliente, que, após ter vivenciado um processo psicoterápico psicodramático, pode fazer uma avaliação do mesmo, dizendo de que forma essa experiência repercutiu em sua vida, em seus comportamentos, em sua maneira de pensar e relacionar-se com outros.

O crédito que estou atribuindo nesta pesquisa ao relato do cliente a respeito de sua psicoterapia, está embasado nas observações de Moreno a respeito da relações interpessoais em geral e da relação terapêutica em específico. Ele disse:

“Observei que, quando o paciente está atraído pelo terapeuta, além da transferência está se passando uma outra forma de comportamento no paciente (…) Ao mesmo tempo, acontece com ele um outro processo: aquela parte de seu ego que não está engolfada pela auto-sugestão sente a si mesma dentro do médico. Avalia o homem que está por trás da mesa e intuitivamente faz uma estimativa de que tipo de homem se trata. Estes sentimentos sobre a realidade daquele homem, realidade física, mental ou outra são as relações tele” (Moreno, 1959b, p. 20).

Como podemos notar, embora Moreno admita a possibilidade da existência de fenômenos transferenciais, ele salienta a capacidade do paciente de se colocar no lugar do médico, captando seus atributos reais. Com base nisso, quando nosso sujeito de pesquisa fizer seu relato, estaremos partindo do pressuposto que ele tem uma certa capacidade télica para avaliar seu processo terapêutico e seu terapeuta, apesar de que em certos momentos sua percepção possa estar sendo obscurecida pela transferência. Nesse sentido, o entrevistador-pesquisador deverá estar atento aos indícios de uma possível transferência, para conseguir discernir entre os dados reais fornecidos pelo sujeito e os dados advindos de distorções decorrentes da transferência.

Identifico duas vantagens nesse modo de pesquisar. Em primeiro lugar , isso permite olhar o processo psicoterápico de um ponto de vista diferente daquele a que estamos acostumados. Utilizando um termo moreniano, poderíamos dizer que tal forma de pesquisar se aproxima de uma ‘inversão de papéis’, já que realizaremos a análise partindo do modo como o cliente vê a psicoterapia psicodramática e não do modo como o psicoterapeuta vê esse processo. Além disso, o fato de essa apreciação ser feita fora do contexto terapêutico propicia um maior distanciamento da situação vivenciada, favorecendo um percepção mais apurada. Esse distanciamento é semelhante ao que é propiciado pela técnica de espelho, em que o protagonista assiste a si próprio de fora da cena e com isso consegue perceber melhor a si mesmo e aos seus interlocutores.

Passarei agora a fazer uma breve apresentação dos capítulos que compõem o presente trabalho.

No primeiro capítulo, abordo a história do psicodrama no Brasil, procurando destacar as principais preocupações e inquietações manifestadas por aqueles que aderiram a essa abordagem psicoterápica. Através disso, aponto para os motivos que me fizeram desenvolver o presente trabalho.

No capítulo seguinte, apresento os principais objetivos da psicoterapia psicodramática, isto é, as intenções fundamentais que despontam a partir de seu referencial teórico. Abordo, primeiramente, as principais metas do psicodrama: o resgate da espontaneidade, o desenvolvimento de relações télicas e a catarse de integração.

Considerei importante fazer uma exposição dos fundamentos teóricos do psicodrama que serviram como sustentação para a definição de cada um dos objetivos da psicoterapia psicodramática, com o intuito de facilitar a compreensão do leitor e de assegurar que esses últimos sejam interpretados a partir da concepção de homem e de mundo característica dessa abordagem.

O terceiro capítulo aborda dois conceitos psicodramáticos, a matriz de identidade e os papéis, que não constituem objetivos do psicodrama, mas que possibilitam uma melhor compreensão do caminho que é necessário ser percorrido para que os objetivos citados sejam atingidos.

O quarto capítulo trata do método que foi utilizado nesta pesquisa. Descrevo o modo como os sujeitos foram selecionados e localizados, o tipo de entrevista realizada e a maneira como essas entrevistas foram analisadas. Procuro detalhar todo o processo de definição do método, deixando claro como foi tomada cada decisão sobre a pesquisa, com o intuito de garantir que o leitor possa compreender como o método desta pesquisa foi sendo construído.

O quinto capítulo refere-se à análise qualitativa das três entrevistas realizadas. Ao terminar a análise de cada entrevista, apresento uma conclusão sobre a mesma, procurando ressaltar os pontos mais relevantes da análise realizada.

No último capítulo apresento uma discussão das entrevistas, procurando avaliar de maneira sistemática em que medida os diversos elementos que caracterizam o psicodrama se fizeram presentes nas psicoterapias relatadas. Abordei os seguintes pontos: os objetivos centrais do psicodrama, o método e as técnicas psicodramáticas e a postura humana do terapeuta, tal como foram percebidos por seus pacientes.
CAPÍTULO I : ASPECTOS HISTÓricos do PSICODRAMA NO BRASIL
Tanto durante a minha formação como psicodramatista como depois de me formar, tenho percebido através de conversas com colegas que existem muitos ‘psicodramas’ diferentes hoje em dia. É como se tivessem surgido várias formas de fazer psicodrama. De certa forma, isso me deixava contente por perceber que o psicodrama estava vivo, em transformação, e que não havia se tornado uma conserva cultural cristalizada. Entretanto, com o passar do tempo, comecei a me preocupar porque muitas vezes tinha a impressão de que o psicodrama apresentava tantas variações que se tornava difícil definir o que caracterizaria tal abordagem.

Por tudo isso, sinto a necessidade de fazer um breve histórico do psicodrama no Brasil para melhor expressar as inquietações que me levaram a fazer esta pesquisa. Mas antes disso, ainda quero apontar para o que o próprio Moreno considera como sendo psicodrama.

“Psicodrama pode daí ser definido como o método que penetra a verdade da alma através da ação” (Moreno, 1959a, p. 106).

Há muito tempo o psicodrama vem sofrendo influências de outras teorias. Anzieu, por exemplo, criou, na década de 50, o psicodrama analítico, que propunha utilizar a técnica psicodramática junto com a teoria psicanalítica. Anne Ancelin Schutzenberg e Pierre Weil propuseram na mesma época conciliar as teorias de Freud, Kurt Lewin e Moreno no que denominaram psicodrama triádico.

Na América Latina, o psicodrama chegou em meados da década de 60 pelas mãos de Rójas-Bermúdez, que agregou uma teoria neuro-fisiológica à obra de Moreno. Ele fundou, na Argentina, a primeira entidade de psicodrama, a Associação Argentina de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo (AAPGP).

No final da década de 60, Alfredo Soeiro, que tinha sido aluno de Rojas Bermúdez veio para o Brasil e fundou o GEPSP, Grupo de Estudos de Psicodrama de São Paulo. Dessa forma, o psicodrama já chegou ao Brasil bastante modificado, pois veio associado à Teoria do Núcleo do Eu, criada por Rójas Bermúdez.

Durante esse período, o psicodrama difundiu-se muito rapidamente no Brasil. Um indício dessa difusão foi o V Congresso Internacional de Psicodrama, realizado em 1970 no Museu de Arte de São Paulo, contando com a participação de 2.300 brasileiros (Bermúdez, 1977, p.12).

Podemos pensar que esse grande interesse pelo psicodrama no Brasil esteja relacionado com o contexto histórico e social da década de 70. Havia um clima de intensa repressão política, em que as pessoas se sentiam tolhidas em suas liberdades individuais e ameaçadas. Quase não havia espaço para expressarem aquilo que sentiam e pensavam. Surgiu daí um forte impulso para movimentos contraculturais que povoaram a década de 60. O psicodrama, por sua vez, parecia valorizar justamente aquilo do qual as pessoas sentiam tanta falta: a expressão e a ação. Moreno propunha o resgate da espontaneidade e acreditava ser possível realizar uma revolução criadora que atingisse o mundo todo. De certa forma, ele reacendia a esperança daqueles que se viram sufocados por um regime militar. O estudo e a valorização do grupo e das relações interpessoais em um período em que organizar grupos possuía um peso, por si só, contestador parece ter influído e despertado o interesse de muitas pessoas.

O congresso do MASP constituiu um marco na história do psicodrama. A partir dele surgiram ou se explicitaram muitas divergências existentes entre os membros tanto do GEPSP quanto da AAPGP. Em decorrência disso, os membros do GEPSP se dividiram e fundaram duas novas instituições de Psicodrama: a Sociedade de Psicodrama de São Paulo (SOPSP) e a Associação Brasileira de Psicodrama (ABPS) (Bermúdez, 1977, p.12).

Além disso, esse congresso sempre foi referido por muitos psicodramatistas, inclusive professores e clínicos, com os quais realizei minha formação, como tendo sido um momento de grande deslumbramento das pessoas com o psicodrama, mas o momento também em que a técnica psicodramática foi utilizada de uma maneira inconseqüente, sem os devidos cuidados e sem conhecimento suficiente do que realmente se estava fazendo.

Mais tarde, na década de 70, Dalmiro Bustos veio ao Brasil e se tornou um grande divulgador do psicodrama, contribuindo para a formação de muitos profissionais. Bustos não criou uma nova teoria para complementar o psicodrama como fez Rójas Bermúdez, mas podemos perceber em seus textos uma certa influência do pensamento psicanalítico. Em um de seus livros, ele propõe buscar subsídios teóricos na psicanálise para suprir aquilo que considera ser deficitário na teoria psicodramática:

“Mas fator ‘e’ enquanto qualidade das condutas pode substituir o conceito de Eu enquanto estrutura? É aqui onde claramente entra a complementação da teoria psicanalítica (…) É inegável a necessidade de ordenação e desenvolvimento da teoria de Moreno, como também é inegável que haveremos de conjugar elementos que surgem da psicanálise. Creio como Martínez Bouquet, que nenhuma psicoterapia é séria sem uma base psicanalítica” (Bustos, 1979, p.23).

No início da década de 80, Alfredo Naffah Neto criticou bastante as deformações ocorridas com o psicodrama e propôs resgatar a identidade própria do psicodrama:

“Recolocando mais uma vez que o psicodrama não constitui uma mera técnica a serviço de quaisquer miscelâneas psicoterápicas (…) É a esta falta de compromisso que oponho aqui a singularidade, a originalidade, as amplitudes e as limitações de uma certa concepção de homem e de um certo método de investigação” (Naffah Neto, 1982, p. 51).

Naffah demonstra um grande receio de que o psicodrama seja mesclado com outras teorias sem considerar devidamente se os pressupostos das mesmas são congruentes com o psicodrama. Ele defende que se busque preservar as raízes do psicodrama. A preocupação que esse autor apresentava na década de 80 é bastante similar a que apresento ainda hoje.

No início da década de 90, Camila Sales Gonçalves percebe que a prática psicodramática sofre a influência de diferentes correntes de pensamento:

“Observando o que se passa (…) com a psicoterapia psicodramática constatamos que os psicoterapeutas apresentam métodos comportamentais, fenomenológicos e psicanalíticos” (1990, p. 96).

Um outro ponto que tem me chamado a atenção é que atualmente percebo que o psicodrama individual tem se tornado cada vez mais freqüente enquanto que a psicoterapia psicodramática grupal torna-se mais rara. De maneira geral, os psicodramatistas justificam tal fato dizendo que é muito difícil montar grupos terapêuticos nos consultórios devido ao número insuficiente de clientes para compor grupos de maneira satisfatória. Com isso, os grupos terapêuticos acabam ocorrendo em maior quantidade apenas nas instituições, onde existe uma grande demanda de pessoas que procuram atendimento gratuito ou honorários inferiores aos praticados na clínica particular.

Podemos pensar que esse fato representa apenas uma adaptação às contingências atuais. Entretanto, considerando que Moreno foi um grande defensor da psicoterapia de grupo, podemos pensar também, que isso possa significar um distanciamento do pensamento moreniano.

Moreno apontou inúmeras vezes em sua obra as vantagens da psicoterapia de grupo, utilizando inclusive a psicoterapia individual como contraponto.

“o pensamento terapêutico modificou-se a partir da psicoterapia de grupo. Nos métodos individuais, o paciente é sempre ‘paciente’. Numa sessão individual existe apenas um terapeuta: o médico. Na psicoterapia de grupo, entretanto, os pacientes podem tomar as funções de terapeutas auxiliares e, em casos excepcionais, inclusive em relação ao médico” (Moreno, 1959a, p.31).

Outro fato que tenho observado é que muitos psicodramatistas e mesmo clientes que estão participando de psicoterapia psicodramática tem relatado que estão dramatizando bem menos. Os terapeutas costumam alegar que muitas vezes a dramatização não é necessária ou ainda que é difícil dramatizar em sessões individuais. Os clientes reclamam que querem dramatizar ou se sentem aliviados por não terem que dramatizar. Será que isso também não seria um indicio de que está ocorrendo uma descaracterização do psicodrama, já que essa abordagem é um método de ação?

Moysés Aguiar (1990) tem demonstrado uma preocupação grande em resgatar o aspecto dramático do psicodrama. Acredito que isso seja decorrente justamente do fato de que esse aspecto tem sido menosprezado na clínica.

“constata-se uma forte tendência a enfatizar no psicodrama muito mais o ‘psico’ do que o ‘drama’” (Aguiar, 1990, p.11).

Aguiar expressa através de um trocadilho com a palavra “psicodrama’, sua grande preocupação de que em função dos psicodramatistas serem em geral profissionais da área de saúde, se privilegie o aspecto verbal em detrimento do aspecto de ação.

O psicodrama foi muitas vezes visto como um conjunto de técnicas que poderia ser utilizado independente de qualquer teoria. Isso fez com que diversos autores (psicodramatistas) como Perazzo (1980), Naffah (1982) e Almeida (1982) se empenhassem em resgatar os fundamentos teóricos do psicodrama, mostrando que o psicodrama não é apenas técnica, mas também uma teoria que contém dentro de si uma determinada visão de homem.

Na década de 90, um outro tipo de preocupação tem se tornado bastante evidente: resgatar o aspecto dramático do psicodrama. Isso me faz pensar que a teoria e a técnica psicodramática não estão suficientemente articuladas, integradas, já que sempre existe um dos aspectos sendo menosprezado.

Essa preocupação com a articulação entre teoria e prática psicodramática me impulsionou a realizar a presente pesquisa, em que procurarei verificar até que ponto os objetivos do psicodrama se mostram presentes na psicoterapia psicodramática brasileira.

CAPÍTULO II: OBJETIVOS DA PSICOTERAPIA PSICODRAMÁTICA

2.1. O resgate da espontaneidade
O conceito de espontaneidade constitui o eixo fundamental da obra de Moreno. Uma das mais conhecidas definições de Moreno referente a espontaneidade diz que esta “(…) é a resposta adequada a uma nova situação ou uma nova resposta a uma situação antiga” (Moreno, 1959a, p.58). Nesse trecho, encontramos dois elementos essenciais da espontaneidade: a adequação e a novidade da resposta. Entretanto, como esses dois elementos aparecem separados pelo “ou”, pode-se compreender precipitadamente que apenas um desses elementos seja suficiente para caracterizar um ato espontâneo. Moreno, por sua vez, deixou claro em muitos outros trechos de sua obra que a espontaneidade abrange necessariamente esses dois elementos. Ele diz: “Originalidade do comportamento não é, em si, uma prova de espontaneidade assim como adequação do comportamento apenas não o é” (Moreno, 1959a, p.58) e ainda em outro trecho: “ A espontaneidade também é a capacidade de um indivíduo para enfrentar adequadamente cada nova situação.” (Moreno,1946, p.132) Podemos pensar que na primeira citação, a preocupação de Moreno tenha sido a de ressaltar que a espontaneidade ocorre tanto diante de situações bastante conhecidas como diante de situações inéditas.

Um outro ponto importante é esclarecer qual o significado do termo ‘adequado’. Moreno não definiu, claramente, o termo ‘adequado’, mas encontramos vários indícios em sua obra de como vê essa noção. Por exemplo, ele cita que no comportamento do psicótico há muita originalidade, mas não há adequação. Além disso, Moreno coloca que um ser espontâneo é um ser sociável. Ele diz que: “Do contato entre dois estados de espontaneidade que, naturalmente estão centrados em duas pessoas diferentes, resulta uma situação interpessoal” (Moreno, 1946, p. 132). A partir disso, podemos supor, então, que a adequação envolve um contato com a realidade e uma certa capacidade de interação social.

Entretanto, muitas vezes, a espontaneidade tem sido compreendida como o indivíduo tomar as atitudes que quiser, desconsiderando as características do meio à sua volta. Os defensores dessa posição, muitas vezes alegam que Moreno se referiu ao ser adequado a si mesmo. Isso, realmente, é verdadeiro, mas para um indivíduo ser adequado a si mesmo é necessário que consiga transformar as situações que considera insatisfatórias em satisfatórias. Para isso terá que considerar a realidade à sua volta e a partir dela procurar a melhor forma de interferir e transformar a situação. Quando um indivíduo se comporta desconsiderando a situação em que está inserido e as pessoas envolvidas, ele não favorece a sua própria inserção na rede de relações interpessoais.

Considero importante ressaltar que o objetivo do psicodrama é propiciar a espontaneidade e não a impulsividade, como foi muitas vezes confundido. Moreno diz:

“A conduta desordenada e os acessos emocionais que decorrem das ações impulsivas estão longe de constituir desideratos do trabalho da espontaneidade” (Moreno, 1946, p.175)

A espontaneidade é uma energia que surge no momento e que portanto não pode ser armazenável. Ela aparece de acordo com a necessidade. Assim, em determinadas situações é requerido um maior grau de espontaneidade do que em outras. Por outro lado, existe um outro tipo de energia que é acumulável e transmitida de geração em geração. Quanto a isso, Moreno diz:

“Há um tipo de energia preservável na forma de conservas ‘culturais’, que pode ser guardada ou gasta de acordo com a nossa vontade em partes selecionadas e usadas em épocas diferentes; como um robô a serviço de seu dono” (Moreno, 1934, p. 152).

Nesse trecho, Moreno expressa a idéia de que as conservas culturais — como, por exemplo, informações adquiridas e valores — são armazenadas como uma energia e podem ser resgatadas e utilizadas por nós a qualquer momento.
A criança nasce espontânea, tendo, já ao sair do útero para um mundo completamente diferente, que apresentar uma série de respostas novas e adequadas, como por exemplo começar a respirar. Durante toda a infância, a criança defronta-se com inúmeras surpresas e novidades, que favorecem intensamente a manifestação de sua espontaneidade. Entretanto com o passar dos anos, a espontaneidade começa a ser tolhida. Na maioria das vezes, lhe são impostas regras, modos de se comportar e ensinamentos que entram em choque com suas necessidades naturais e restringem a expressão de sua criatividade e espontaneidade. Tais imposições estão relacionadas às conservas culturais, isto é, a tudo aquilo que foi produzido pelo homem e que se mantém, como, por exemplo, a tecnologia, os valores e normas culturais, as teorias, etc.

Essas conservas culturais são importantes para o homem na medida em que lhe servem de base para um ato espontâneo. Entretanto, se o homem se apega demasiadamente a essas conservas torna-se escravo delas, utilizando-as, sem avaliar se são apropriadas ou não à situação. Moreno fez muitas criticas aos métodos tradicionais de educação, por acreditar que, na maioria das vezes, eles sufocavam a capacidade espontânea da criança.

Moreno comenta que esse apego exacerbado do homem às conservas culturais iniciou-se quando o homem primitivo começou a ter medo de arriscar tudo em algo tão incerto quanto o momento, buscando intensamente formas de conservar os resultados advindos de sua criatividade, ou seja, produzindo conservas culturais. Ele diz:

“A terrível sensação de imperfeição, que os desempenhos momentâneos e improvisados lhe deram, foi sagazmente superada pelo apego a estas muletas tecnológicas e culturais”(Moreno, 1946, p. 130).

Um dos objetivos centrais da psicoterapia psicodramática consiste em resgatar a espontaneidade. Isso se faz necessário em virtude dessa capacidade ter sido cerceada pela sociedade. Moreno fala em ‘resgatar’ porque acredita que o homem nasça espontâneo, sendo o próprio nascimento seu primeiro ato espontâneo. Como instrumento para resgatar a espontaneidade Moreno utiliza-se da ação dramática, isto é, da possibilidade do indivíduo vivenciar situações passadas, presentes ou futuras no ‘como se’ , tendo a oportunidade, então, de encontrar respostas novas e mais satisfatórias para suas dificuldades e seus conflitos e assim tornar-se mais espontâneo. Espera-se que com isso o indivíduo liberte-se de certas conservas culturais que o aprisionam, tornando-o robotizado, repetitivo e pouco criativo. É como se o indivíduo tivesse se tornado amarrado a determinadas formas de comportamento, que foram assimiladas como sendo as certas ou as únicas possíveis. Embora muitas vezes isso não lhe satisfaça, a pessoa tem dificuldade de criar novas soluções. O psicodrama propicia, então, um espaço imaginário, mais seguro e longe da situação real, onde o indivíduo pode experimentar respostas diferentes daquelas que dá habitualmente.

Dentro da concepção psicodramática, enquanto a espontaneidade está associada à saúde, a não espontaneidade é considerada como sinônimo de doença psíquica. Segundo Garrido (1984), a patologia da espontaneidade pode estar ligada tanto à inadequação das respostas como à falta de criatividade das mesmas. No primeiro caso, o indivíduo distancia-se da realidade em que vive, criando um mundo de fantasia. Na segunda situação revela-se um apego grande aos valores e normas culturais (1984, p. 229). Em ambos os casos, o indivíduo não consegue responder de maneira satisfatória às diferentes situações com as quais se defronta e cabe ao psicodrama recuperar a capacidade de ser espontâneo. Quanto a isso, Moreno diz:

“(…) é destituída de valor uma profunda confiança na sábia orientação da natureza, sem a invenção de uma técnica especial do momento para conservar permanentemente a espontaneidade.” (Moreno, 1946, p.198)

Nesse trecho, Moreno deixa claro que, embora todos nós tenhamos potencial para desenvolver a espontaneidade, ela pode encontrar empecilhos que dificultem sua manifestação, tornando-se necessário criar formas de garantir sua preservação. Além disso, fica implícito que a espontaneidade precisa, para se manifestar, de uma condição específica. Em outro trecho, ele explicita qual seria essa condição:

“um tipo de universo aberto(…) em que é continuamente possível um certo grau de novidade (…) Não poderia surgir num universo fechado, isto é, determinado por leis absolutas” (Moreno, 1946, p.138).

É por isso que Moreno propõe o ‘adestramento’ da espontaneidade, isto é, uma maneira sistemática de favorecer o surgimento do estado de espontaneidade. Esse adestramento pode seguir duas direções: do corpo à mente, quando se propõe ações que estimulem a ação dos músculos que por sua vez ativarão o funcionamento da mente e o surgimento de certos estados emocionais; e da mente ao corpo, que se caracteriza por estimular inicialmente o funcionamento mental, propiciando o surgimento de idéias, fantasias e sentimentos e através destes acionar o comportamento corporal (Moreno, 1946, p. 194). No ato espontâneo, mente e corpo, pensamento e ação estão interligados. Entretanto, devido a uma educação que impõe à criança conceitos que não correspondem às suas necessidades, ocorre uma cisão entre aquilo que ela sente e pensa e os seus atos.

Para finalizar quero ressaltar que Moreno considera a espontaneidade e a criatividade como conceitos que estão intrinsecamente ligados. Chegou a dizer que a espontaneidade-criatividade é um conceito gemelar, sendo que a espontaneidade constitui a matriz do crescimento criativo (1924, p. 147).
2.2. O desenvolvimento de relações télicas
Outro objetivo de grande importância no psicodrama é o favorecimento e o desenvolvimento de um maior número de relações télicas, isto é, relações que se caracterizam pela percepção real e mútua dos participantes. Esse tipo de relação favorece o entrosamento e a integração social. Moreno diz:

“Tele (…) é o cimento que mantém os grupos unidos(…) estimula as parcerias estáveis e relações permanentes” (Moreno, 1946, p.36).

Moreno frisou, em sua obra, a diferença existente entre o conceito de tele e a empatia. A empatia se refere à capacidade de um indivíduo colocar-se no lugar do outro, captando como o outro está se sentindo, enquanto que a tele é a empatia ocorrendo nas duas direções, isto é, um indivíduo percebe e é percebido de maneira objetiva pelo outro. A tele é considerada por Moreno como sendo um conceito social, enquanto que a empatia é considerada como um conceito individual, isto é, refere-se a uma noção psicológica. Em função disso, ele optou por utilizar em sua obra apenas o termo ‘tele’, já que sua teoria está voltada para o estudo das relações interpessoais.

O desenvolvimento de tal conceito deu-se a partir das experiências de Moreno com os mais variados grupos constituídos, por exemplo, por prostitutas (1913-14), crianças (1913-14), refugiados de guerra (1915-17) e mães. Ao coordenar esses grupos, Moreno percebeu a importância das relações interpessoais no processo terapêutico. Ele diz: “Um indivíduo pode ser um auxiliar terapêutico para outro indivíduo” (Moreno, 1959a, p. 168). Em suas experiências com teatro espontâneo, ele percebeu a grande capacidade que os ego-auxiliares tinham de captar os sentimentos do outro ao utilizar técnicas psicodramáticas como, por exemplo, o duplo e a inversão de papéis. Concluiu, então, que tais ocorrências não poderiam se dar ao acaso e que deveria existir algo no ser humano que propiciasse a compreensão mútua e a coesão grupal com as quais estava deparando, e a isso denominou-se ‘tele’.

Além disso, posteriormente, ao criar e aplicar o teste sociométrico, que serve para medir as relações interpessoais, Moreno constatou que as pessoas tinham uma grande capacidade de se perceberem de forma objetiva, comprovando de maneira sistemática a existência da tele: “(…) a tele é algo que emergiu da análise terapêutica de relações inter-pessoais concretas” (Moreno apud Garrido, 1984, p. 196). A partir disso, Moreno concluiu que a tele é “(…) o fundamento de todas as relações interpessoais sadias e elemento essencial de todo método eficaz de psicoterapia” (Moreno, 1959 a, p. 52). Assim sendo, a tele é considerada como um critério de saúde mental das relações interpessoais. Como Moreno sempre considerou primordial não perder de vista a idéia de que o homem é um ser social, nada mais natural e esperado do que avaliar o grau de saúde mental a partir do modo como o indivíduo interage socialmente.

Moreno escreveu um poema denominado “Convite ao encontro” em 1914, que retrata de maneira muito apropriada o conceito de tele:

“Um encontro de dois: olhos no olhos, face a face.
E quando estiveres perto, eu arrancarei seus olhos
e os colocarei no lugar dos meus
e você arrancará meus olhos
E os colocará em lugar dos teus,
Então, eu olharei para você com os teus olhos
e você me olhará com os meus (…)”
(Moreno, 1959, p. 22)

Nesse poema, Moreno descreve um encontro em que cada um dos participantes é capaz de se colocar no lugar do outro, de enxergar o que o outro está enxergando, de captar como o outro está se sentindo, enfim, de se relacionar com o outro percebendo efetivamente quem é esse outro. O que Moreno propõe é uma relação plena entre duas pessoas. Isso nada mais é do que uma descrição vívida do conceito de tele.

A tele é um conceito abrangente que envolve aspectos cognitivos, sociais, afetivos e biológicos (Bustos, 1979, p. 17). Assim sendo, a tele não se restringe à limitada percepção que nos é conferida pelos órgãos dos sentidos, mas a uma capacidade global, na qual operam diversas áreas como o pensamento, o sentimento, as sensações corporais, a sociabilidade.

O indivíduo apresenta ao nascer um potencial para desenvolver a tele e à medida que a criança vai estabelecendo relações com o mundo, ela vai desenvolvendo gradualmente essa capacidade. Entretanto, no decorrer de sua vida, podem surgir obstáculos que atrapalhem o funcionamento da tele, provocando uma percepção distorcida e equivocada de diversas situações. A esse fenômeno, Moreno denominou transferência. Trata-se de um fenômeno secundário que desvirtua um fenômeno primário, a tele. Assim sendo, a transferência é a patologia da tele. Enquanto a transferência está ligada a episódios do passado que obscurecem a situação momentânea, a tele opera no aqui e agora, de forma sintonizada com o momento presente.

O psicodrama tem como meta eliminar ou diminuir a incidência de elementos transferenciais nas relações interpessoais, propiciando um maior grau de tele. Assim sendo, sempre que o terapeuta perceber que há uma relação transferencial deverá apontar o que está ocorrendo, procurando discernir junto com o cliente quais são as distorções apresentadas e como se originaram. Isso pode ser feito verbalmente ou através da dramatização.

No caso da dramatização, existe uma série de técnicas psicodramáticas como por exemplo o duplo, o espelho e a inversão de papéis, que auxiliam o paciente a se dar conta dos elementos transferenciais e a estabelecer relações entre eles e as experiências que os originaram. O espaço dramático permite, também, que o indivíduo reviva, reelabore e resignifique as relações primárias que se entrecruzaram e se mesclaram às relações atuais, obstruindo-as e distorcendo-as.

Quando trabalhamos verbalmente, procuramos destacar para o paciente os elementos de seu próprio discurso que assinalam a possibilidade de uma relação transferencial. Por exemplo, se o paciente diz que sua irmã não gosta dele, mas por outro lado narra episódios em que sua irmã demonstra estar preocupada com ele, o terapeuta irá apontar tal fato. Como o próprio Moreno dizia, mesmo nas relações transferenciais sempre haverá algum grau de tele operando, isto é, seremos sempre capazes de absorver, pelo menos, uma pequena parcela do mundo que nos cerca, de forma objetiva. O terapeuta deverá, então, utilizar-se dos resíduos de tele que por ventura estejam em ação, como um auxilio para eliminar os elementos transferenciais.

É importante ressaltar que o conceito de transferência tal como foi concebido por Moreno também é um fenômeno interpessoal, assim como a tele, ou seja, tanto o cliente como o terapeuta estão sujeitos a transferir, distorcendo a imagem do outro. Moreno diz:

“ O psiquiatra também projeta suas fantasias no paciente. A transferência desenvolve-se em ambos os pólos (…) A análise deveria ser efetuada a partir de ambos os extremos da linha” (1946, p. 285).

Assim sendo, o psicodramatista deve ficar atento à relação interpessoal cliente – terapeuta como um todo, englobando tanto os fenômenos télicos como os transferenciais dos dois lados.

Por outro lado, embora Moreno demonstre uma certa preocupação com a transferência, ele afirma que ela “desempenha um papel definido, mas limitado nas relações inter-pessoais” (1946, p. 286). Tal conclusão baseou-se nas observações que fez trabalhando com grupos diversos e aplicando o teste sociométrico. Ele constatou que a maior parte das escolhas interpessoais não estão baseadas em fantasias transferenciais, mas sim em atributos reais da pessoa escolhida, ou seja, na tele-relação. Consequentemente, a tele passa a ser vista como “o processo interpessoal geral de que a transferência é uma excrescência psicopatológica especial” (Moreno, 1946, p. 289). O psicodrama, por sua vez, procurará favorecer o surgimento de relações télicas, para as quais o indivíduo já apresenta um potencial, e tratar ou eliminar os elementos transferenciais que estejam ocasionalmente prejudicando o funcionamento do fator tele.
2.2.1. Discussões referentes ao conceito ‘tele’

Alguns autores, como Sérgio Perazzo (1989/94) e Moysés Aguiar (1990), têm demonstrado preocupação em elucidar melhor o significado do conceito de tele. Tal fato é decorrente de terem percebido que Moreno apresenta esse conceito de várias formas no decorrer de sua obra, sendo necessário um estudo mais minucioso para tirar conclusões a respeito de seu significado e de sua aplicação.

Procurarei agora apresentar alguns desses problemas conceituais e colocar minha posição a respeito dos mesmos. Quero deixar claro que não tenho a pretensão de esgotar a discussão desse tema no presente trabalho, já que isso implicaria uma revisão detalhada da utilização do termo ‘tele’ em toda a obra moreniana, o que não constitui o objetivo do mesmo. Pretendo apenas abordar os aspectos relevantes para este trabalho, me posicionando em relação aos mesmos.

Perazzo observa que na obra de Moreno:

“(…) tele ora é definida como um fator, à semelhança do fator ‘e’ (espontaneidade), que próprio do indivíduo, é capaz de atuar num dado momento numa dada relação, sendo responsável pela força de coesão de um grupo ou pela estabilidade desta mesma relação, ora como um canal de comunicação e expressão desobstruído de transferências e que viabiliza o encontro” (1994, p. 35).

Considero tal colocação como sendo bastante pertinente por evidenciar que Moreno, embora salientasse em muitos trechos de sua obra a dimensão relacional do conceito de tele, em outros momentos parece ter se esquecido disso, referindo-se a ele como um potencial individual. Entretanto, embora seja indiscutível que aí está presente uma incongruência do ponto de vista conceitual, se olharmos a obra de Moreno como uma totalidade encontraremos um sentido para isso.

Moreno sempre acreditou que o ser humano tem um potencial para se relacionar com o outro, estabelecendo trocas e sendo capaz de perceber o que o outro está sentindo e se colocar no lugar do outro. Nesse sentido, tele é uma capacidade, um potencial que caracteriza a concepção de homem de Moreno. Porém, a tele só pode se concretizar e tomar forma a partir das relações interpesssoais. A sua manifestação só é possível na relação com o outro.

Outro ponto polêmico diz respeito à objetividade inerente ao conceito de tele. Moreno diz: “ [a tele] repousa no sentimento e conhecimento da situação real de outras pessoas” (1959a, p. 52). Surgem então algumas questões: será possível captar a situação real das outras pessoas? O que Moreno quer dizer com realidade? Para melhor entendermos o que Moreno quis expressar com isso, proponho que consideremos o contexto histórico em que tal afirmação surgiu. Moreno viveu em Viena cercado por um ambiente intelectual fortemente influenciado pela psicanálise. Ao desenvolver sua teoria, utilizou muitas vezes como contraponto o pensamento e a prática psicanalítica. Ao construir o conceito de tele, ele procurou ressaltar o fato de que nem tudo o que paciente percebia a respeito de seu psicanalista estava relacionado com figuras do seu passado, mas sim que uma grande parte se referia aos atributos próprios do analista.

Assim sendo, Moreno emprega a noção de realidade em contraponto com as idéias psicanalíticas de fantasia e de transferência. É como se ele nos alertasse no sentido de que nós estamos conectados com o mundo que nos cerca e que os elementos que fazem parte desse mundo repercutem de maneira significativa em nossos pensamentos, sentimentos e ações. Não vivemos apenas em um mundo de fantasia. Por tudo isso, não interpreto a fala de Moreno em um sentido purista, em que o objeto e a imagem formada do objeto seriam idênticos, mas sim no sentido de que as características de ambos os elementos têm sua importância no desenrolar da relação.

Como Sérgio Perazzo aponta: “numa relação, cada componente é ao mesmo tempo objeto e percepto um do outro” (1994, p. 41). Assim sendo, torna-se impossível falar de uma percepção estática de um em relação ao outro, na medida em que existe um dinamismo da relação, no qual um continuamente afeta e é afetado pelo outro. Isso, entretanto, não implica descartar o fato de que as características próprias dos elementos que estão em relação tenham grande importância no modo como a relação se configura e se desenvolve. Por outro lado, significa aceitar a idéia de Moysés Aguiar de que “a percepção correta é puro mito” (Aguiar, s.d., p. 9). Perazzo dá uma grande contribuição ao refletir sobre essa questão, ele diz:

“Não sendo possível ver o outro como ele é, talvez numa situação de encontro o que seja possível é ver a relação como ela está naquele momento para vivê-la na disposição que entendamos ‘por inteiro’ num pequeno fragmento temporal” (1994, p.41).

Nesse trecho, Perazzo ressalta dois aspectos relevantes da tele: seu caráter relacional e sua dimensão temporal. Nós não captamos o outro como um objeto isolado, mas sim como alguém com o qual interagimos. Ademais, essa interação se dá no aqui e agora. O que sou em uma dada relação hoje não é o mesmo que ontem nem será o mesmo que amanhã.

Outro ponto que provoca confusão ao lermos a obra de Moreno é que em certos trechos ele se refere à tele em relação a objetos e animais enquanto em outros momentos enfatiza a mutualidade como característica essencial da tele. Surge então uma questão: é possível ocorrer mutualidade ou reciprocidade entre um indivíduo e um objeto inanimado como por exemplo uma obra de arte? Acredito que não. Então porque Moreno faria tal colocação? Penso que aqui surge de novo o problema da referência à tele ora como uma capacidade do indivíduo, ora como um fenômeno relacional. Quando se refere aos objetos, ele faz referência à tele como um fator, uma potencialidade que existe em cada um de nós para captar o mundo que nos cerca, inclusive os objetos inanimados. Ao se referir à capacidade de coesão e compreensão entre duas ou mais pessoas concebe-se tele enquanto fenômeno relacional.

Como já foi apontado anteriormente, é a existência do fator tele que torna possível a emergência e o desenvolvimento das relações tele. As referências de Moreno à ‘tele para objetos’ e à tele para animais’ estão em sua maioria associadas às suas explicações sobre a forma como a tele se desenvolve no ser humano. Ao nascer o bebê ainda não consegue perceber os limites que o separam do mundo externo. Mais tarde começa a distinguir os objetos inanimados dos animados, apresentando uma tele rudimentar. Posteriormente, irá se aprimorar mais, de tal modo que será capaz de distinguir os objetos reais e imaginários e desenvolver uma tele positiva e negativa.

Podemos notar que Moreno está se referindo à tele como um fator que se desenvolve durante a infância e que nos possibilita apreender melhor o mundo que nos cerca. Esse fator seria a base, o alicerce que nos possibilita estabelecer relações télicas na vida adulta. Assim, ao buscar explicar a origem e o desenvolvimento das relações tele, Moreno comete novamente uma contradição em termos conceituais, utilizando a mesma palavra para descrever um fator individual e um fenômeno relacional.

Por outro lado, Moreno explica muito bem como se dá o desenvolvimento da capacidade télica na infância, mostrando que a criança gradualmente vai percebendo melhor o outro, tornando-se possível a relação télica. Levando isso em conta, podemos dizer que tal contradição não repercute no valor das idéias apresentadas por Moreno, constituindo apenas um problema de terminologia, que exige uma maior atenção do leitor.

Por fim, gostaria de ressaltar que os problemas conceituais encontrados não diminuem o valor do criador do psicodrama nem de sua obra, mas constituem reflexos do percurso percorrido por Moreno para desenvolver a teoria e a técnica psicodramática. Como sabemos, o psicodrama foi construído aos poucos a partir das observações e experiências de Moreno. Com certeza não foi um processo linear, mas sim um processo de idas e vindas, de caminhos e descaminhos que se revelam quando lemos a obra de Moreno.
2.3. A catarse de integração

 

A psicoterapia psicodramática visa também a possibilitar a catarse de integração, isto é, a integração, a apropriação e a clarificação de aspectos que antes pareciam estranhos ou obscuros ao sujeito ou ao grupo, levando a uma transformação efetiva, significativa a partir da ação dramática.

Moreno procurou ressaltar a amplitude desse conceito, destacando suas diversas dimensões.

“A teoria psicodramática desenvolveu a idéia de catarse em quatro direções: a somática, a mental, a individual e a grupal” (Moreno, 1946, p. 65).

Aqui, Moreno demonstra considerar que a catarse não se dá apenas no plano individual, com o ator que representa seu drama, mas também no plano grupal, na medida em que se irradia e se espalha pela platéia. Além disso, ele aponta para a importância tanto do corpo quanto da mente nesse processo.

Moreno demonstrou ter uma certa preocupação com a forma como esse termo era compreendido. Ele disse:

“O método psicodramático é, muitas vezes classificado entre os métodos catárticos. Não é exato. O efeito catártico de ab-reação pertence também ao processo terapêutico. Mas o fator decisivo é a integração sistemática de toda a cadeia seguinte: o psicodrama é composto de cenas estruturadas, cada cena de papéis estruturados e cada papel de ações estruturadas” (Moreno, 1959a, p. 79).

Bustos também fez questão de salientar a relevância do aspecto integrador do psicodrama :

“A catarse é somente o cume de um processo, a integração é o próprio processo, gradual, às vezes lento e penoso. O conflito inicial pode estar, em geral, condensado em um sintoma, uma inibição, um mal-estar vago. Lentamente, na sessão de psicodrama esta condensação desaparece para começarem a aparecer aspectos claros. Até encontrar-se em cena todos os elementos que constituíam a origem do conflito” (Bustos, 1979, p. 80).

Essas duas citações deixam claro que o objetivo fundamental do psicodrama não se limita à expressão intensa de sentimentos e emoções. Embora tal tipo de catarse emocional ocorra com freqüência, essa só cumprirá seu papel se propiciar ao sujeito ou ao grupo uma maior compreensão de suas experiências. Assim, esse conceito difere claramente da noção de catarse empregada pela psicanálise.
Moreno relaciona a catarse com a visão de um novo universo e a viabilidade de um novo crescimento (1946, p. 65). Assim sendo, a catarse de integração tem um efeito transformador, já que possibilita a apreensão de novos aspectos da realidade vivida, bem como de novas possibilidades, impulsionando o indivíduo para o crescimento.
Moreno não tomou como ponto de partida a catarse de ab-reação (Freud, Breuer, 1893), mas sim a catarse aristotélica que ocorre no espectador ao assistir uma peça teatral. Entretanto, ele considerou que tal forma de catarse era muito passiva e procurou transformar o espectador em possível ator e criador. Assim nasceu o conceito de catarse de integração como um conceito próprio do psicodrama (Almeida, 1982, p. 44). Com relação a isso, Moreno afirma:
“E, de acordo com esta análise tem lugar a catarse (primária): mas não só no espectador (efeito desejado secundário) e nas dramatis personae de uma produção imaginária mas nos atores espontâneos do drama, que produzem os personagens libertando-se deles ao mesmo tempo” (1946, p. 64).
Nesse trecho, além de Moreno mostrar que está buscando um tipo de catarse diferente da aristotélica, ele aponta para as conseqüências disso. A partir do momento em que as personagens constituem uma criação espontânea dos atores, esses se vêem de tal forma envolvidos com o drama que as exploram intensamente, ao ponto de descobri-las e desmistificá-las, libertando-se delas.
Wilson Castelo de Almeida (1982) salienta a importância da catarse de integração como método peculiar e principal da cura psicodramática. Tomando como referência sua experiência clínica, ele propôs uma classificação da catarse de integração em três tipos: resolutiva, evolutiva e revolutiva.
A catarse de integração resolutiva ocorre de maneira rápida, súbita, em decorrência de um ato dramático. A partir de uma experiência dramática profunda, o indivíduo sai revigorado, iluminado e aberto a novas experiências, a novas formas de agir. Seu efeito é duradouro. Podemos dizer que se assemelha a um relâmpago que de uma hora para outra nos possibilita visualizar uma grande área antes desconhecida.
As catarses de integração evolutiva são aquelas que vão ocorrendo gradualmente durante o processo terapêutico, isto é, a cada ato dramático ou a cada sessão o indivíduo ou grupo descobre algo novo que repercute no seu processo de transformação.
A catarse de integração revolutiva é aquela “que o revoluciona interiormente, sensibilizando-os para novos e oportunos aprofundamentos psicológicos e relacionais” (Almeida, 1982, p. 50). Ela representa um despertar do indivíduo para um novo aspecto a ser trabalhado. É um “dar-se conta” intenso de algo que precisa ser encarado. É um marco no processo terapêutico.
Rapidamente pude identificar em minha prática profissional a catarse evolutiva e a resolutiva e pude confirmar a observação de Almeida de que a primeira é muito mais freqüente que a segunda. Entretanto, tive maior dificuldade em detectar a terceira forma, por não ter percebido inicialmente a diferença entre a catarse evolutiva e a catarse revolutiva de maneira clara. Relendo o texto de Almeida e observando mais atentamente o que ocorria na clínica pude perceber as diferenças e semelhanças existentes. Os dois tipos dependem de uma continuidade para garantirem um efeito mais significativo. Entretanto, enquanto a catarse evolutiva se refere a catarses parciais que vão se somando como se fossem partes de um quebra-cabeça, a catarse revolutiva é aquela que impulsiona o indivíduo a iniciar o desvelamento de alguma temática.
Como assinala Bustos, Moreno não se deteve em investigar os tipos de catarse, apresentando apenas algumas definições gerais (1979, p.80). Entretanto, podemos encontrar indícios de que Moreno deparou com algo semelhante à catarse evolutiva, descrita por Almeida. Ele diz:
“Há numerosos elementos capazes de produzir uma catarse parcial. Mas, pela integração sintética de todos os elementos, pode ser obtida a catarse total” (1946, p. 66).
Aqui, Moreno demonstra perceber a existência de catarses parciais, que são características da catarse evolutiva. Além disso, ele aponta para a possibilidade de integrar todos os elementos produzindo uma catarse total, o que corresponderia ao ápice da catarse evolutiva.
CAPÍTULO III: CONCEITOS QUE REPRESENTAM O MODO PELO QUAL O PSICODRAMA ATINGE SEUS OBJETIVOS

3.1. A matriz de identidade

A teoria da matriz de identidade também constitui um elemento importante para refletir e delimitar os objetivos do psicodrama. Ela reflete o pensamento de Moreno a respeito do desenvolvimento infantil indicando o que considera como sendo um desenvolvimento saudável.
A Matriz de identidade foi definida por Moreno como “a placenta social da criança, o locus onde ela mergulha suas raízes. Proporciona ao bebê humano segurança, orientação e guia” (1946, p. 114). Corresponde, portanto, ao ambiente que circunda o bebê desde o momento de seu nascimento e que tem como função lhe oferecer as condições necessárias para o seu desenvolvimento biológico, psicológico e social.
Moreno descreveu no livro Psicoterapia de grupo e psicodrama três fases do desenvolvimento da criança (etapas de identidade existencial): a) etapa de identidade do eu com o tu; b) etapa de reconhecimento do eu; e c) etapa de reconhecimento do tu (1959a, p. 115). Quando o indivíduo consegue atravessar de maneira satisfatória essas fases, ele torna-se capaz de diferenciar o Eu e o Tu e pode inverter papéis com facilidade. Entretanto, nem sempre tal processo é bem sucedido. Quando essas etapas não ocorrem da maneira esperada, o indivíduo apresentará dificuldades em suas relações interpessoais.
Na etapa de identidade do eu com o tu, o bebê percebe o mundo como sendo uma extensão de seu corpo, não conseguindo perceber-se ainda como um ser diferenciado. O mundo interno e o mundo externo são aos seus olhos uma coisa só. Nesse período inicial, a criança irá gradualmente explorando e descobrindo seu corpo a partir do desempenho dos papéis de defecador, urinador e comedor. A criança ainda não é capaz de reconhecer-se como um Eu diferenciado, mas ela já tem condições de captar o clima afetivo que a cerca.
A fase de reconhecimento do Eu é aquela em que as crianças começam a se olhar no espelho. Num primeiro momento, elas não conseguem perceber que o que estão vendo é a sua própria imagem refletida e se relacionam com o espelho como se lá houvesse uma outra pessoa. Gradualmente, vão percebendo que suas ações são repetidas pela imagem que vêem, até o ponto em que compreendem que é a sua própria imagem que está no espelho. Esse episódio é demonstrativo de uma importante conquista no desenvolvimento da criança, que começa a perceber-se como um ser diferenciado. As vivências corporais presentes desde a fase anterior são agora reconhecidas como sendo pertencentes a ela, ao seu corpo. Ela passa a perceber os limites existentes entre o mundo interno e externo, mas ainda não é capaz de distinguir entre fantasia e realidade.
A fase de reconhecimento do Tu se caracteriza pela troca de papéis, na qual mãe e filho conseguem se colocar um no lugar do outro. A criança poderá então experimentar diversos papéis, como os de mãe, pai, professora, e, através do desempenho desses papéis, irá aprendendo a respeito do mundo que a cerca. Simultaneamente deparará com o outro desempenhando seu papel, o que lhe propiciará uma visão mais distanciada de seu próprio papel. Maria Regina Volpe salienta a importância, nessa etapa, de que os pais coloquem limites claros para seus filhos, pois só assim eles terão condições de perceber o outro como alguém diferente, que possui seus próprios gostos, desejos, e limitações. Ela aponta ainda para um outro benefício dos pais saberem dizer não aos filhos:
“Com isso, está dizendo também a esse filho que assim como é permitido a ele, pai, ter e assumir seus limites e dificuldades, isso é permitido também a ele, filho” (1982, p. 14).
Gostaria de ressaltar que Moreno em outro livro, Psicodrama (1946), faz uma classificação um pouco diferente, em que identifica cinco fases em vez de três. A primeira fase é a mesma em ambas as classificações. Entretanto, nessa outra versão, ele parece dividir a fase de reconhecimento do Eu em duas etapas: 1) a criança concentra a sua atenção no outro e deixa de reparar em si mesma; e 2) ela presta atenção em si mesmo, esquecendo-se do outro. Além disso, ele acrescenta mais uma fase antes da fase de reconhecimento do Tu em que ocorre a troca de papéis. Essa outra fase consiste em a criança representar os papéis desempenhados por outras pessoas, mas ainda não propor nem aceitar que os outros interpretem o seu papel. (1946, p. 112)

3.2. As técnicas psicodramáticas
A psicoterapia psicodramática procura identificar se houve e quais foram os comprometimentos no desenvolvimento da matriz de identidade. A partir disso, utilizará as técnicas psicodramáticas objetivando desenvolver no indivíduo aquilo que não foi possível anteriormente.
As técnicas básicas do psicodrama apresentam objetivos que estão diretamente ligados às fases de desenvolvimento da matriz de identidade. Na técnica do duplo, o ego-auxiliar funciona como um segundo ‘eu’ que decodifica aquilo que o protagonista está sentindo, de maneira semelhante ao que ocorre na primeira fase de desenvolvimento quando a mãe precisa decodificar e atender às necessidades do bebê. O duplo é de grande utilidade no tratamento de psicóticos pois propicia a eles, alguém que compartilhe de seu mundo interno e que funcione como um elo, ainda que frágil, com o mundo externo. Ele pode ser aplicado a qualquer pessoa por basear-se no estágio mais primitivo do desenvolvimento infantil.
A técnica do espelho, por sua vez, propicia um distanciamento do protagonista em relação à cena que está vivendo, favorecendo um melhor reconhecimento do Eu, que corresponde justamente ao objetivo da segunda fase.
“Essa vivência infantil tem paralelo com a técnica psicodramática do espelho, apenas não temos um espelho real, mas o paciente se vê, vê seu psiquismo como num espelho” (Moreno, 1959a, p. 117).
Na técnica do solilóquio solicitamos que o paciente verbalize aquilo que está pensando. Isso favorece que o indivíduo preste atenção no que está sentindo, possibilitando também um melhor reconhecimento do Eu.
A inversão de papéis tem como meta que o indivíduo se coloque no lugar do outro e se relacione consigo mesmo a partir do ponto de vista do outro, o que é bastante parecido com o que ocorre na terceira fase da matriz, quando a criança com cerca de três anos, propõe aos outros jogos de inversão de papéis.
Além das técnicas psicodramáticas, a própria relação que se estabelece entre cliente e terapeuta tem grande importância no psicodrama, pois através dela o cliente pode encontrar oportunidade para vivenciar situações antigas num contexto diferenciado daquele de sua matriz de identidade.
Dessa forma, estará resgatando sua espontaneidade e descobrindo novas formas de relacionamento. Fonseca (1980, p. 112) coloca que a vivência psicoterápica é capaz de inscrever “novas marcas” no indivíduo, isto é, o próprio terapeuta através do seu modo de agir e reagir às ações do cliente pode possibilitar que este descubra um novo modo de se relacionar, que, até então, não podia vislumbrar ou simplesmente lhe parecia impossível.
Pensemos. por exemplo, num indivíduo que cresceu dentro de uma matriz de identidade em que toda vez que solicitava ajuda não era atendido. Com o tempo, ele acabou desistindo de solicitá-la, considerando a priori que não seria atendido mesmo ao se relacionar com outras pessoas, em contextos diferenciados. Esse indivíduo, ao deparar com um terapeuta que se mostra solícito e acolhedor, pode descobrir que é possível solicitar ajuda. A partir dessa vivência, ele poderá transformar outras relações em sua vida, mudando seu modelo de conduta e mostrando-se menos auto-suficiente. Nesse sentido, concordo com Fonseca quando ele compreende “a psicoterapia como uma neo-matriz ou como uma re-matriz, no sentido de revivências corretivas sobre a primeira matriz, a original” (1980, p. 113).

3.3. O desenvolvimento de papéis

Através da teoria dos papéis, também podemos refletir sobre os objetivos psicodramáticos. Para isso, é necessário em primeiro lugar, esclarecer o conceito de papel. Moreno define ‘papel’ como sendo “os aspectos tangíveis do que é conhecido como ‘ego’ ’’ (Moreno, 1934, p. 178). Em outras palavras, papel se refere a um conjunto de ações observáveis e identificáveis por terceiros. Por exemplo, um professor , uma mãe ou um líder são assim identificados em função de um conjunto de ações que os caracterizam.
O desempenho de papéis pressupõe uma inter-relação, sendo impossível exercer qualquer papel que seja, sem nos relacionar com um outro ser. Cada papel tem como correspondente um contra-papel, por exemplo, para que possa existir o papel de médico é necessário que exista o paciente. Moreno diz: “um papel é uma relação inter-pessoal e necessita de dois ou mais indivíduos para ser realizado” (Moreno, 1946, p. 238).
Moreno ressalta que considera a utilização do termo ‘papel’ mais pertinente que o emprego de termos como ‘ego’ e ‘personalidade’ por considerar que ele tem uma conotação mais objetiva, por ser observável enquanto que os demais são muito subjetivos. Ele diz: “Estes últimos (ego e personalidade) são menos concretos e vêm envoltos em mistérios metapsicológicos” (Moreno, 1934, p. 178).
Apesar de questionar a utilização do termo ‘eu’, Moreno estabelece algumas relações entre esse conceito e os papéis. Ele diz que os papéis surgem antes que o ‘eu’ (1934, p. 210), isto é, a criança desenvolve papéis psicossomáticos, como os de defecador, urinador e comedor, e a partir do desempenho desses papéis é que a criança desenvolve um ‘eu’.
Moreno salienta que geralmente priorizamos desempenhar os papéis que são solicitados e cobrados mais intensamente pelo meio externo. Entretanto, o indivíduo sente necessidade de desempenhar muitos outros papéis. Surge então um conflito entre os papéis oficiais, que o indivíduo assume efetivamente, e os papéis latentes, isto é, aqueles que ele tem vontade de desempenhar, mas não consegue, em função das pressões e exigências sociais. Esse tipo de situação provoca uma grande ansiedade. O psicodrama procura ajudar o indivíduo a reconhecer e desenvolver os papéis que lhe são importantes e que estão sendo colocados de lado. Ao mesmo tempo, favorece que esses papéis sejam desempenhados com espontaneidade.
Moreno desenvolveu diversas formas de avaliar e medir o desempenho de papéis. Ele solicitava aos sujeitos tarefas como: interpretar da maneira que quisessem uma determinada personagem como, por exemplo, Hamlet; interpretar papéis sociais diversos; encenar junto com um grupo de desconhecidos uma determinada situação, como, por exemplo, um desastre de avião, um acampamento em uma floresta, etc. Ele registrava tudo o que acontecia em cena e depois analisava os dados. Aos poucos, ele foi desenvolvendo uma classificação do material coletado.
Com relação ao grau de espontaneidade dos papéis desempenhados, Moreno distinguiu três níveis: role-taking, que se refere a uma simples imitação ou reprodução do papel; role-playing, quando o papel é desempenhado com um certo grau de liberdade e flexibilidade, isto é, percebe-se que o intérprete confere ao papel alguma contribuição pessoal, demonstrando um certo grau de espontaneidade e role-creating, que corresponde ao estágio mais desenvolvido do desempenho de papéis e que consiste em uma forma própria de desempenhar o papel de maneira espontânea.
Como todos nós apresentamos o potencial para sermos espontâneos desde o nascimento, teoricamente todos os seres humanos teriam a capacidade de atingirem o role- creating no desempenho dos mais variados papéis. Entretanto, as pessoas muitas vezes se prendem de tal forma às conservas culturais, que ficam estagnadas na primeira fase sem permitir o ‘desabrochar’ de sua espontaneidade. Quando isso ocorre é função do psicodramatista favorecer o desenvolvimento do papel, utilizando para isso a ação dramática e as diversas técnicas psicodramáticas.
Ao desenvolver a teoria de papéis, Moreno foi percebendo as relações entre os papéis e a cultura. Ele observou que os papéis variavam de acordo com a cultura e que os estudos de papéis seriam de grande utilidade para os antropólogos e sociólogos, já que o conjunto de papéis desempenhados dentro de uma mesma cultura dizem muito a respeito do funcionamento da mesma e possibilita estudos comparativos. A partir disso, ele constatou que era possível avaliar a idade cultural de um indivíduo, utilizando o teste de papéis. Moreno utilizava os papéis mais reconhecidos dentro da cultura , e solicitava que os sujeitos representassem esses papéis e depois, em uma segunda etapa, identificassem quando esses papéis fossem representados por outras pessoas. Após a aplicação, avaliava-se os seguintes aspectos: o número de representações, número de percepções e o nível das representações que Moreno subdividiu em quatro categorias: 1) representação abaixo do nível de reconhecimento; 2) representações parciais; 3) representações distorcidas; e 4) representações adequadas. É justamente relacionando todos esses dados que se obtém a idade cultural de um indivíduo.
Como podemos notar, Moreno se preocupava tanto com a qualidade dos papéis como com a quantidade de papéis desempenhados por uma pessoa. Esses dois dados servem para avaliar a saúde da pessoa. Assim sendo, o psicodrama tem como objetivo não só desenvolver o desempenho espontâneo de papéis como também favorecer o desempenho de um maior número de papéis.

 

CAPÍTULO IV: MÉTODO

 

Para definir qual método seguir em minha pesquisa, procurei estar muito atenta às características de meu objeto de estudo: as transformações propiciadas pela psicoterapia psicodramática. Sabia que não estava lidando com um objeto fixo, imutável, totalmente controlável. Pelo contrário, tinha clareza de que meu objeto de estudo variava de indivíduo para indivíduo e que apresentava uma complexidade que não deveria ser desprezada às custas de um ideal de ordem e uniformidade. Com base nisso, optei por realizar uma pesquisa qualitativa, através da qual poderia garantir que a singularidade e a complexidade do meu objeto de estudo fossem respeitadas.

Essa modalidade de pesquisa “busca uma compreensão particular daquilo que estuda” (Martins & Bicudo, 1994, p. 23). Podemos dizer que o valor deste tipo de pesquisa é o de favorecer uma melhor compreensão e aprofundamento a respeito do tema estudado a partir do estudo de casos específicos. É justamente isso o que pretendo alcançar na presente pesquisa.

Um outro ponto importante que deve ser considerado é que a pesquisa qualitativa parte do pressuposto de que “há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito” (Chizzotti, 1995, p. 79). Assim, não podemos considerar nosso objeto de pesquisa como algo totalmente isolado, mas sim em constante interação com o mundo que o cerca. Assim como não podemos considerar o pesquisador, como um indivíduo neutro que não se envolve com seu objeto de estudo. Podemos dizer que tal concepção está de acordo com o referencial teórico utilizado nesta pesquisa, o psicodrama, pois Moreno sempre enfatizou a idéia de que o homem é um ser social e como tal deve ser visto em interação.
4.1. Critérios para escolha de sujeitos

 

Com a finalidade de atender aos objetivos da presente pesquisa, optei por entrevistar sujeitos que tivessem realizado no mínimo dois anos de psicoterapia psicodramática. Esse tempo mínimo foi delimitado com a intenção de assegurar a possibilidade de avaliar de maneira mais efetiva, aprofundada e detalhada os resultados desse processo.

Embora seja possível, de acordo com a teoria e a técnica psicodramática, atingir os objetivos do psicodrama — por exemplo, favorecer o desenvolvimento da espontaneidade — num tempo bem mais curto, como meses, semanas ou até mesmo num único ato terapêutico, optei por pesquisar os resultados de um processo psicoterápico por acreditar que dessa forma conseguirei apreender de forma mais nítida as transformações propiciadas pelo psicodrama, já que o sujeito terá experienciado a prática psicodramática por um tempo maior.

Como o objetivo era compreender melhor as transformações propiciadas pelo método psicodramático, os sujeitos poderiam estar realizando ou ter realizado psicoterapia psicodramática individual, grupal ou ambas simultaneamente, pois em qualquer uma das modalidades o método psicodramático é em tese utilizado. Quanto às singularidades da psicoterapia grupal e individual, essas seriam levadas em conta durante a análise das entrevistas e provavelmente enriqueceriam o estudo.

Com relação a faixa etária, optei por entrevistar sujeitos adultos por considerar que eles apresentam uma maior capacidade de elaboração do discurso, apresentando melhores condições de se expressar e de avaliar o próprio processo psicoterápico em função do desenvolvimento intelectual alcançado. Além disso, o fato de sempre ter me dedicado a psicoterapia de adultos, fez com que desenvolvesse um interesse particular pela mesma.

Considerei relevante estabelecer a condição de que os sujeitos não fossem psicólogos, psiquiatras, estudantes de psicologia ou ainda outros profissionais que tivessem realizado cursos de psicodrama. Decidi impor tal condição para evitar que conhecimentos prévios sobre o psicodrama e suas metas influenciassem o relato do sujeito, de tal forma que esse acabasse por se distanciar demasiadamente de sua própria vivência como cliente, que é o que de fato interessa na presente pesquisa. Essas pessoas poderiam facilmente utilizar seus conhecimentos para explicar seu próprio processo psicoterápico, de tal forma que seus depoimentos se assemelhariam mais a explanações sobre psicodrama do que a própria vivência da psicoterapia psicodramática. Além disso, como essas pessoas estariam estudando e/ou trabalhando com o método psicodramático, provavelmente haveria um forte motivo por parte das mesmas em validar e legitimar esse método.

Quanto ao sexo dos sujeitos considerei que embora fosse interessante ter representantes de ambos os gêneros para assegurar uma certa heterogeneidade, isso não constituía uma condição essencial para a presente pesquisa, já que esta não tem como objetivo estabelecer comparações nesse âmbito.
4.2. Forma de localizar os sujeitos

 

Pensei inicialmente em encaminhar uma carta para diversos psicoterapeutas psicodramatistas, solicitando que perguntassem para alguns de seus clientes, que tivessem realizado pelo menos dois anos de psicoterapia psicodramática, sobre o seu interesse em participar de uma pesquisa sobre psicodrama.

Entretanto, antes mesmo de encaminhar as cartas, comecei a me preocupar com o modo como os psicoterapeutas escolheriam os clientes que iriam me encaminhar. Quais seriam os critérios utilizados por eles? Será que eles escolheriam os clientes que eles considerassem como os mais bem sucedidos. Resolvi, então, perguntar para algumas colegas psicodramatistas como elas escolheriam os clientes. Para minha surpresa, descobri que algumas pessoas nem sequer falariam a respeito da pesquisa para os clientes, por considerar que isso pudesse interferir no processo psicoterápico. Outras pessoas confirmaram o que eu já suspeitava, isto é, que escolheriam os clientes que tivessem evoluído mais durante a terapia.

Com base em tudo isso, resolvi desistir de contatar os sujeitos através de psicoterapeutas psicodramatistas, por considerar que dessa forma haveria um risco considerável de obter apenas sujeitos que foram considerados pelos seus terapeutas como casos bem sucedidos, o que não corresponde ao objetivo de minha pesquisa.

Optei, então, por perguntar para pessoas com que convivo, se elas conheciam alguém que tivesse feito psicoterapia psicodramática por pelo menos dois anos. Em caso afirmativo, pedi que falassem sobre minha pesquisa e se houvesse interesse faria um contato.

Ao realizar o primeiro contato com o sujeito, por telefone, me apresentava dizendo meu nome e minha profissão. Em seguida, explicava brevemente que estava realizando uma pesquisa sobre a psicoterapia psicodramática e que precisava entrevistar pessoas que tivessem feito esse tipo de psicoterapia. Procurei confirmar o tempo de psicoterapia que a pessoa tinha realizado e perguntar se ela se dispunha a colaborar com a pesquisa. Por fim, procurava combinar um dia e horário para a entrevista.
4.3. A entrevista

 

Optei por utilizar a entrevista como instrumento metodológico desta pesquisa, por acreditar que isso me possibilitaria um melhor acesso ao tema pesquisado, já que teria um contato direto com o sujeito, através do qual poderia explorar mais detalhadamente o tema em questão. Martins & Bicudo ressaltaram bastante o valor da entrevista ao escreverem:

“(…) sempre que se deseja desocultar a visão que uma pessoa possui sobre uma determinada situação é preciso que se lance mão do recurso que a entrevista fornece. Ela é a única possibilidade que se tem de obter dados relevantes sobre o mundo-vida do respondente” (1994, p. 54).

Mesmo questionando a idéia de que seja o único meio, considero que seja pertinente atribuir um destaque especial à entrevista em função da riqueza de dados que pode propiciar ao pesquisador. Considerando isso, descartei a possibilidade de utilizar questionários por se tratar de um instrumento pouco flexível, em que as questões não podem variar de sujeito para sujeito nem de acordo com o contexto, tornando-se, portanto, muito restritivo.

O tipo de entrevista escolhido para a presente pesquisa foi a despadronizada ou não estruturada, que permite ao entrevistado se expressar livremente, seguindo o caminho que desejar (Marconi, 1990). Nesse tipo de entrevista procura-se fazer perguntas amplas que possibilitem ao entrevistado abordar o tema pesquisado de inúmeras formas diferentes. O entrevistador não segue um roteiro fixo de perguntas, sendo que essas são elaboradas no decorrer da própria entrevista, de acordo com o relato do sujeito.

Vou falar agora do modo como realizei as entrevistas. Em primeiro lugar, me apresentava ao sujeito e explicava brevemente o objetivo de minha pesquisa da seguinte forma: “Quero conhecer melhor as transformações propiciadas pela psicoterapia psicodramática”. Procurava não me estender muito nessa explicação para evitar que durante a entrevista o sujeito ficasse muito preocupado em abordar o assunto pesquisado e com isso limitasse sua liberdade para relatar seu processo psicoterápico. Quando o sujeito mostrava um maior interesse a respeito da pesquisa, me dispunha a conversar sobre o assunto após o término da entrevista.

Outro ponto que considerei de grande relevância na entrevista foi garantir ao sujeito que a sua identidade não seria revelada na pesquisa, respeitando os princípios éticos e possibilitando que o sujeito ficasse mais à vontade.

Quando coloquei isso para a segunda entrevistada, ela se manifestou sugerindo um nome para si. A partir dessa experiência, decidi que nas entrevistas seguintes, perguntaria à pessoa se ela gostaria de escolher seu nome fictício. Além disso, como já tinha realizado uma entrevista, resolvi telefonar para a primeira entrevistada e lhe dar a oportunidade de também eleger seu nome.

Considero que escolher o próprio nome é mais uma forma pela qual o sujeito participa da pesquisa. Nesse sentido, a segunda entrevistada contribuiu com sua atitude espontânea para enriquecer a pesquisa.

No início da entrevista, eu solicitava a permissão do sujeito para gravá-la.

Antes de iniciar a entrevista propriamente dita, coletei alguns dados básicos como: idade, sexo, profissão, período de psicoterapia psicodramática e perguntei se a psicoterapia realizada tinha sido individual, grupal ou ambas. Esses dados eram importantes pois possibilitavam que eu tivesse um perfil do sujeito, que mais tarde poderia ser relacionado com o relato da entrevista. Além disso, esse momento funcionava como um aquecimento para a entrevista.

Ao refletir sobre como deveria introduzir a entrevista propriamente dita, pensei que seria importante dar uma consigna inicial que estimulasse o sujeito a relatar livremente tudo aquilo que tivesse sido significativo em seu processo psicoterápico. Pouco tempo depois, tive contato com diversas pesquisas que utilizavam a técnica da história de vida e isso me inspirou a elaborar a seguinte questão: “Conte a história de seu processo terapêutico dizendo como você o vivenciou” Essa questão ampla tinha como finalidade, deixar o sujeito bastante a vontade para escolher o que considerasse importante falar a respeito de seu processo psicoterápico. Acredito que isso tenha enriquecido a pesquisa, pois possibilitou o surgimento de informações que talvez eu nem pensasse em perguntar e que favoreceram a reflexão sobre o tema da pesquisa.

No decorrer da entrevista, de acordo com a necessidade, eu formulava perguntas complementares, tanto no sentido de esclarecer pontos que tivessem ficado obscuros no depoimento, quanto para indagar sobre aspectos que não tivessem sido abordados, mas que apresentassem relação com o tema da pesquisa. Para ilustrar apresento abaixo algumas dessas perguntas complementares, mas quero ressaltar desde já que se trata apenas de exemplos. As perguntas variaram bastante, nas diversas entrevistas, por tratar-se de entrevista despadronizada.

1 – Você tinha algum conhecimento prévio sobre psicodrama?

2 – Você escolheu fazer psicoterapia psicodramática ou isso ocorreu ao acaso?

3 – O que o levou a buscar uma psicoterapia?

4 – O que você pretendia alcançar fazendo uma psicoterapia? Você conseguiu atingir esse objetivo?

5 – O que você acha que mudou em você durante o processo psicoterápico?

6 – Você considera que as suas mudanças devem-se ao processo psicoterápico ou a outros fatores? Qual o peso que você atribui ao processo psicoterápico nessas transformações?

Procurei estar atenta às expressões faciais do sujeito durante toda a entrevista, anotando qualquer reação diferente como por exemplo sorrir, rir, franzir a testa, fazer careta, chorar, etc. Tal procedimento serve para complementar os dados obtidos através da gravação, já que essa só registra as expressões verbais, deixando de fora as formas de expressão não verbal (Ludke, 1986).

4.4. A postura do pesquisador durante a entrevista
Quero esclarecer um pouco mais a respeito do lugar que ocupei como pesquisadora durante a entrevista.

Posso dizer que meu papel de pesquisadora foi ancorado por um outro papel que desenvolvi: o de psicodramatista. Foram o olhar e a escuta de psicodramatista que me permitiram compreender o depoimento do sujeito. Tudo o que aprendi em termos teóricos, sobre conceitos como espontaneidade, tele e catarse de integração, associado ao treino propiciado pela experiência clínica de entender aquilo que os clientes traziam auxiliou na compreensão da fala dos sujeitos.

Assim sendo, não me coloquei como um ouvinte ingênuo que parte do senso comum e/ou que toma como verdade tudo o que o sujeito coloca, sem considerar a forma como expressa e o contexto em que está inserido. Além disso, não encarei de maneira simplista os depoimentos, mas sim procurei estar atenta à complexidade e às contradições dos mesmos.

Para exemplificar essa minha postura, quero me remeter ao trecho em que uma das entrevistadas se queixa de que a temática abordada pelo grupo é muito diferente da que ela apresenta. Não parti do pressuposto de que isso era uma verdade e procurei considerar outros elementos existentes no relato que pudessem me auxiliar na compreensão disso. A partir dessa abertura foi possível compreender melhor o sentido do que ela tinha dito e descobrir inclusive que haviam pontos em comum entre a sua temática e a dos demais participantes.

Por outro lado, procurei não perder de vista que a finalidade da entrevista se restringia à pesquisa e como tal não devia exercer funções terapêuticas. Por isso tomei cuidado para não me colocar na posição de psicoterapeuta da pessoa entrevistada. Assim sendo, utilizava o meu papel de psicodramatista para escutar ativamente o relato do entrevistado, mas procurava não intervir como um agente terapêutico.

Considero que essa seja uma posição difícil para o entrevistador, já que exige que ele dissocie dois elementos que costuma utilizar concomitantemente na clínica: a análise do que o cliente diz e a conseqüente intervenção clínica. Para que consiga fazer essa separação é necessário que o seu papel de pesquisador esteja bem estruturado para que não seja sobrepujado pelo papel de terapeuta.

Acredito ter conseguido atuar como pesquisadora, sabendo reconhecer claramente os limites que diferenciam esse papel do de psicoterapeuta. Como pesquisadora procurei conhecer uma determinada experiência, mas não tive o intuito de intervir ou transformar a mesma. No entanto, o ato de refazer ou recontar uma história é por si mesmo transformador.

Como exemplo disso quero citar a situação em que Mônica fala de seu primeiro grupo de terapia e revela um intenso incômodo com o grupo. Como terapeuta, eu faria perguntas com intuito de explorar mais o sentido desse incômodo ou ainda proporia representar uma situação que tivesse vivido com o grupo e utilizaria técnicas como a inversão de papéis para melhor compreender essas relações e o conflito ali contido. Entretanto, como minha intenção era apenas pesquisar e não realizar uma sessão psicoterápica, limitei-me a perguntar se o grupo a tinha ajudado de alguma forma, uma vez que isso constituía uma informação importante para a pesquisa.

Meu intuito como pesquisadora era saber como ela vivenciou seu processo psicoterápico e não possibilitar que ela transformasse ou compreendesse melhor as impressões e percepções que teve a respeito desse processo. Entretanto, não se pode negar que isso pode constituir um benefício secundário para o sujeito.

Na entrevista com Marília, que ainda estava realizando psicoterapia psicodramática, esta expressa em vários momentos que tem procurado mudar certas atitudes, como por exemplo, as situações de impulso, mas que ainda encontra dificuldades. Como terapeuta, eu poderia querer trabalhar essas situações e auxiliá-la nessas dificuldades. Como pesquisadora tal atitude seria inadequada.

A meu ver, isso implica em uma postura ética, já que o meu contrato com o sujeito foi o de realizar uma pesquisa e não o de realizar qualquer tratamento ou psicoterapia. Assim sendo, mesmo que de maneira implícita o sujeito solicitasse o desempenho do papel de terapeuta, mantive-me firme no papel de pesquisadora. No caso de ocorrer uma solicitação explícita nesse sentido, seria necessário fazer um encaminhamento ou rever o contrato.

Gostaria de acrescentar que procurei ter uma postura bastante acolhedora para que os entrevistados se sentissem à vontade para relatarem sua vivência psicoterápica. Demonstrei sempre um grande respeito e consideração por aquilo que colocavam. Acredito que isso tenha sido muito importante, já que os entrevistados estariam falando da sua intimidade a alguém que tinham acabado de conhecer. Era necessário que confiassem no entrevistador para que se expressassem livremente sobre o assunto.
4.5. Análise
Procurei transcrever as gravações nos dias subseqüentes à entrevista. Dessa forma se houvesse alguma falha na gravação como por exemplo alguma palavra ou algum trecho que não estivesse nítido seria mais fácil lembrar o que tinha ocorrido. Além disso, poderia me lembrar mais facilmente das expressões e da postura da pessoa durante a entrevista, o que por vezes auxiliou na análise do material.

Em seguida, reli atentamente a entrevista com o objetivo de identificar referências diretas ou indiretas, implícitas ou explícitas, aos efeitos e transformações decorrentes do processo psicoterápico. Com a finalidade de visualizar melhor aquilo que me interessava, grifei todos os trechos identificados.

Tendo feito isso, passei a realizar a análise qualitativa propriamente dita do material selecionado. Trabalhava com um trecho de cada vez, mas quando percebia que existiam relações importantes com outros trechos, relia os mesmos com a finalidade de conferir a pertinência dessas relações e, se fosse o caso, tecia comentários sobre as mesmas.

Ao analisar os trechos procurei prestar bastante atenção tanto ao conteúdo como à forma do discurso. Eu iniciava fazendo um comentário sobre o que o entrevistado estava expressando com a sua fala, procurando fazer uma interpretação da mesma. Além disso, assinalei as contradições existentes no discurso, levantando hipóteses que pudessem justificar a presença de tais contradições.

Para facilitar o acompanhamento do leitor, destaquei em negrito os trechos que considerei mais significativos nas entrevistas e que apresentaram maior destaque na análise.

Posteriormente, estabeleci relações entre aquilo que foi expresso no relato do entrevistado e os três objetivos centrais da psicoterapia psicodramática: o resgate da espontaneidade, o desenvolvimento de relações télicas e a catarse de integração. Procurei avaliar se esses objetivos foram ou não alcançados e em que grau isso ocorreu.

Por fim, observei nos relatos se existiam indicadores de que o método dramático havia sido utilizado e em que medida isso tinha ocorrido. Procurei identificar também que técnicas psicodramáticas haviam sido empregadas e de que modo. Isso nos fornece indícios de quanto os elementos que caracterizam o psicodrama estiveram presentes nas psicoterapias dos entrevistados e que importância tiveram para os mesmos.

 

 

CAPÍTULO V
ANÁLISE DAS ENTREVISTAS
5.1. MARÍLIA

Marília é uma moça solteira de classe média que tem cerca de 35 anos. Ela trabalha na área de saúde e também leciona em alguns períodos. Gosta bastante de viajar, tendo preferência por passeios ecológicos.
Faz psicoterapia psicodramática individual uma vez por semana há quatro anos, solicitando, algumas vezes, sessões extras.
Em seu relato, que durou cerca de uma hora, ela deixa muitas vezes frases incompletas, ficando alguma coisa subentendida para o interlocutor inferir. Além disso, muitas vezes um olhar ou uma risada parecem completar a sua fala, substituindo a palavra prestes a ser dita.

Marília inicia o seu depoimento falando do que a levou a buscar a terapia. Ela diz: “Eu comecei a pensar em fazer terapia há uns cinco, seis anos atrás. Eu abria o berreiro e quem fazia eu sair do berreiro (!?) É uma coisa que foi bastante forte. Tudo me levava para o choro. Em todo o processo e na terapia inclusive. A gente começou a trabalhar justamente isto.”

Como podemos notar, Marília resolveu solicitar ajuda em um momento de crise intensa, em que sentia uma tristeza muito grande. Houve espaço para que essa tristeza e esse choro pudessem ser levados e trabalhados na terapia.

Um pouco depois, ela volta a esse assunto, dizendo: “Hoje pode até vir o choro, mas eu sei do que se trata, o que leva à, porque eu estou chorando. Eu faço alguma coisa contra aquilo que estou afim de fazer.”

Aqui surge uma transformação em relação ao seu choro: antes ele a dominava, sem que conseguisse ter clareza do que a levava a chorar, atualmente ela já consegue identificar o que a faz chorar. A mudança descrita parece ter ocorrido em termos de percepção, isto é, Marília conseguiu discernir melhor o que estava acontecendo com ela. Entretanto, não fica claro nesse trecho se ocorreu também uma mudança em relação à sua ação. Marília percebe que seu choro está relacionado a estar se contrariando de alguma forma, mas não diz se tem conseguido fazer algo para mudar isso.

Marília descreveu várias vezes a técnica do espelho, o que me leva a pensar que essa técnica teve uma relevância grande em seu tratamento. Um dos momentos em que isso ocorreu foi quando lhe perguntei que atitudes da terapeuta haviam lhe ajudado e ela respondeu: “ Quando ela fazia tudo igual a mim. Eu ficava uma arara, mas era o que me botava mais para pensar. A hora que ela falava a mesma coisa que eu ou tomava as mesmas atitudes, eu queria morrer, queria voar no pescoço. Mas era alguma coisa que me mobilizava, me parava… Fazia com que eu parasse para pensar. As vezes eram coisas ridículas que para mim eram deste tamanho [afasta uma mão da outra no intuito de expressar algo grande]”

Marília revela um grande incômodo com essa técnica devido ao fato desta denunciá-la, fazendo com que se visse de maneira bastante nítida, deparando com suas próprias atitudes. Apesar de sentir-se desconfortável na situação, ela reconhece os efeitos positivos da técnica, como o de lhe propiciar a reflexão sobre a situação vivida. Além disso, a técnica ajudou Marília a redimensionar certas experiências, atribuindo um valor diferente às mesmas. Certas coisas que tinham um importância extrema para ela, agora lhe parecem insignificantes, ‘ridículas’. Aqui aparece claramente um dos objetivos do espelho, ou seja, propiciar que se tome distância da situação vivida e com isso consiga enxergá-la de outra forma. É interessante notar também que a aplicação da técnica mobilizava a raiva de Marília em relação à terapeuta.

Ao continuar falando das atitudes da terapeuta que tinham lhe ajudado, Marília narra um momento de sua terapia que foi bastante marcante. Após o término de um namoro, ela ficou preocupada e resolveu fazer um teste de H.I.V. Ao buscar o resultado, que estava num envelope transparente, percebeu que era positivo. Em seguida, ela ligou para a terapeuta, que se prontificou a atendê-la imediatamente. Tal episódio repercutiu de maneira intensa na relação com a terapeuta, conforme podemos perceber no seguinte relato: “Contei além da terapeuta com uma pessoa amiga. Isso foi o que pegou, o terapeuta como um ser que sente, que chora. Que, até então, eu pensava que só eu tinha problemas, que o terapeuta não. Agora que tudo passou [o resultado do exame estava errado]. Foi uma semana passada juntas. Foi tão grande. Eu estava num sufoco imenso e ela acabou entrando no sufoco também. Até por estar do meu lado, né?”

A disponibilidade da terapeuta para atendê-la imediatamente num momento crítico e a atitude de acolhimento dela tiveram grande importância para que Marília conseguisse suportar melhor a dor da notícia recebida. O fato de a terapeuta ter se sensibilizado com a situação e ter inclusive chorado ao receber a notícia, conforme foi descrito por Marília em outro trecho, fez com que ela se sentisse amparada, apoiada, tendo alguém ao seu lado.

Além disso, Marília passou a perceber sua terapeuta de uma maneira diferente. Ela descobriu de repente que sua terapeuta também é um ser humano , capaz inclusive de sentir tristeza e se mostrar solidária por saber que sua cliente estava doente. Ela pôde se dar conta da pessoa que está por trás da terapeuta que a atende.

Na situação acima, podemos observar que Marília pôde captar os sentimentos da terapeuta em relação ao que estava vivenciando. Nesse sentido, podemos dizer que a capacidade télica de Marília estava operando. Ela também demonstra que antes tinha uma percepção bastante idealizada da terapeuta, não conseguindo perceber a mesma como uma pessoa (que sente, que chora) e que só nesse momento descobriu o seu lado humano. Isso faz pensar que a sua relação com a terapeuta estivesse se tornando menos transferencial e mais télica, já que estava conseguindo perceber de maneira mais realista quem era sua terapeuta.

O relato de Marília também aponta para a capacidade que a terapeuta teve de captar o sofrimento da cliente e sua necessidade de apoio e solidariedade. Isso indica que a capacidade télica da terapeuta também estava operando, de modo a possibilitar a relação télica.

Por outro lado, quando Marília relata que a terapeuta “entrou no sufoco também”, isso nos faz pensar que nessa situação a terapeuta se envolveu demais com a problemática de Marília, não preservando o distanciamento necessário para desempenhar o papel de terapeuta. Podemos dizer que ocorreu uma indiferenciação entre terapeuta e cliente, onde as duas sofreram juntas pelo que tinha ocorrido. Conforme o relato de Marília, as duas vivenciaram a situação da mesma forma. Não há indícios de que a terapeuta tenha conseguido olhar para o que ocorreu como uma pessoa que está de fora.

Em seguida, Marília conta como foi depois que ficou sabendo que o resultado do exame estava errado : “A gente levou… Eu levei uma cervejinha para o consultório. [risada] Eu falei assim: não, eu vou levar uma cervejinha porque afinal de contas a gente tem que comemorar. E aí que foi a questão de sair do terapeuta, né, sair realmente e estar partilhando alguma coisa. É que não sei se isto tem de ter papel definido ou não. Até onde vai um papel e inicia outro. Claro eu sei exatamente onde é, onde termina. No consultório isto é muito claro, mas eu nunca tinha saído deste papel de terapeuta e de estar de repente comemorando alguma coisa. Nunca! Hoje, ela acaba dando muito mais palpite, não é palpite, é exemplo.”

Marília se permitiu propor algo diferente para comemorar o resultado do exame, embora percebesse que isso significava uma mudança de papéis. Quando ela disse “a gente levou”, pareceu incluir a terapeuta nessa sua iniciativa, como se soubesse que a mesma aprovaria sua proposta. Além disso, essa fala revela que Marília percebia sua terapeuta como estando bastante envolvida com o seu problema. Provavelmente, a maior proximidade e intimidade entre as duas, durante esse período, fez com que Marília se sentisse à vontade para romper com certos padrões, propondo algo que normalmente não ocorreria em uma sessão de terapia, mas que parecia ser pertinente no contexto em que estava inserido. Ela percebia que isso implicava sair dos papéis de terapeuta e cliente, mas demonstrou uma certa dúvida se isso devia ou não ter ocorrido. Seu discurso é bem contraditório neste sentido: uma hora ela diz que não sabe se tem que ter papel definido e onde começa um papel e termina outro; depois, ela diz que sabe exatamente onde termina cada papel.

Podemos dizer que Marília deu uma resposta inovadora e adequada à situação que estava vivendo, isto é, uma resposta espontânea. A terapeuta, por sua vez, parece ter correspondido à proposta de sua cliente, agindo também de maneira espontânea. Entretanto, para que essa resposta espontânea fosse possível, foi necessário que terapeuta e cliente saíssem temporariamente de seus papéis e se colocassem como duas pessoas amigas comemorando uma ótima notícia. Depois do ocorrido, seria necessário para continuidade do processo terapêutico que a terapeuta voltasse ao seu papel favorecendo dessa forma que Marília também retornasse ao seu papel de cliente. O relato de Marília demonstra que ela se sentiu bastante confusa com relação ao papel da terapeuta, o que nos faz pensar que o mesmo não estava suficientemente estabelecido.

Em seguida, Marília fala de maneira mais detalhada a respeito de sua relação com a sua terapeuta e com a terapia. Ela comenta: “ eu sempre me sentia numa posição de xeque-mate. Opa! Eu ainda vou conseguir dobrar. Eu tinha a sensação de que eu tinha que dobrar a terapeuta, era como se fosse uma luta. Este era o sentimento de estar em terapia. Era como se eu tivesse que vencer… No inicio ela falava algumas coisas e eu saía de lá concordando, mas não muito, né, ou, então pensando. Às vezes eu ficava um tempo em silêncio e ela falava: ‘o que você está pensando?’ E eu pensava: o que você tem a ver com isso? [risada]. Então muitas vezes eu ia, eu perguntava as coisas no sentido de que ela tinha que dar a solução, como se ela tivesse a solução para as coisas. Hoje eu já chego até com a solução. De repente, ela faz algumas colocações que vão até empatiando. Poucas vezes ela ainda usa… Só um pouquinho. Hoje a minha relação com a terapeuta é mais ‘light’. A relação é menos agressiva. Eu sou menos agressiva. Eu não estou tão irônica”.

Podemos observar que Marília vivencia a terapia de maneira bastante intensa. Em alguns momentos, ela demonstra estar lutando contra a terapeuta, no sentido de tentar imobilizá-la. A terapeuta a fazia se sentir em posição de xeque-mate, provavelmente por lhe fazer colocações que tocavam em pontos difíceis de serem abordados por Marília ou ainda por propor dramatizar essas situações. Quando ela fala que o sentimento de estar em terapia era o de luta podemos pensar além da luta com a terapeuta, na sua luta interna para continuar em terapia e enfrentar as questões necessárias para conseguir sair da situação em que se encontrava.

É interessante notar que, em certos momentos, ela reage à intervenção da terapeuta como sendo uma invasão enquanto que, em outras situações, ela praticamente convida a terapeuta a tomar decisões por ela, lhe fornecendo soluções prontas. De certa forma, era como se ela dissesse à terapeuta que estava difícil aprofundar o tema e que a terapeuta teria que lhe dar uma solução pronta. Existe uma ligação entre isso e o modo como Marília se relaciona com as pessoas em sua vida, tanto que, em outro trecho de seu depoimento, ela fala que costumava cobrar muito das outras pessoas querendo que elas lhe dêem resultados.

O relato de Marília nos faz pensar que ela está conseguindo se transformar em certos aspectos. Hoje, ela já consegue encontrar soluções próprias, o que mostra uma maior autonomia. Além disso, ela mostra que está conseguindo transformar suas relações, sendo menos agressiva e menos irônica. Em um trecho posterior isso fica ainda mais claro, quando ela diz: “Hoje, eu consigo parar e falar ‘Opa!’ e perceber o que não está agradando porque o ser agressiva é justamente um lado do não agrado.”

Com relação à dramatização em geral, o discurso de Marília apresenta uma intensa dualidade. Ao mesmo tempo em que reclama das dramatizações, ela assinala os ganhos que teve com essas experiências. Ela diz: “Uma das coisas que eu achava que era bastante interessante que ela usava muito [aponta as almofadas no canto da sala]… Eu queria fazer tudo menos aquilo. Qualquer coisa em cima de almofada: colocar uma coisa, falar com…, tentar fazer alguma coisa com… Acabava revertendo porque eu saía de lá mais pensante ainda.”

Marília demonstra sentir uma repulsa muito grande em relação à dramatização, mas apesar disso revela um grande interesse pela mesma, parecendo gostar do que esta lhe provoca. Tanto a repulsa quanto o interesse que manifesta estão ligados a um mesmo aspecto: a dramatização a mobiliza bastante, tornando-a ‘mais pensante ainda’. Por um lado, Marília demonstra querer essa mobilização, vendo nela a possibilidade de trabalhar seus conflitos e se transformar. Por outro lado, Marília se assusta com a mobilização que a dramatização lhe provoca, provavelmente por perceber que olhar para determinados temas envolve um certo sofrimento. Apesar de sua aversão à dramatização, Marília conseguiu participar das dramatizações e tirar proveito das mesmas. Quando ela diz que saía de lá mais pensante, podemos pensar novamente numa transformação em termos da percepção de seus conflitos.

Em um outro momento, Marília diz: “No dramático eu fico muito mais agressiva. Eu acho que acaba mexendo, acaba mobilizando. Não que conversar não mobilize, mas… Eu também acho que quando ela entra com a dramatização são momentos assim mais complicados e que precisa ser e aí fica aquilo como se fosse uma panela de pressão.”

Esse trecho reforça a idéia de que Marília se incomoda bastante com a dramatização chegando até a ficar mais agressiva porque esta a mobiliza. A seguir, ela deixa implícito que existe uma diferença entre simplesmente falar, narrar ou contar e o dramatizar. Inclusive, sua frase inacabada com ‘mas’ deixa subentendido que o dramático possibilita algo que não é possível ocorrer no nível verbal. Além disso, ela julga que a dramatização era solicitada justamente em momentos mais críticos, o que explica ainda mais porque as dramatizações mobilizavam tanto. Por fim, quando diz que eram situações ‘que precisavam ser’, ela valoriza a dramatização como sendo algo necessário e importante.

Em seguida, Marília diz: “Na sessão seguinte, comentando e tentando mudar a atitude. É o que mais tenho feito. Aliás, uma das coisas que eu faço muito… Eu não utilizo só a sessão de terapia para estar pensando, para estar percebendo coisas, mas até fora dela…isto tem sido muito constante”.

Aqui Marília demonstra que a dramatização não só lhe fazia refletir sobre diversos assuntos, mudando sua percepção sobre os mesmos, mas também lhe mobilizava no sentido de transformar suas atitudes.

Esse é um dos objetivos do psicodrama. Moreno sempre frisou que nada adianta apenas ficarmos analisando uma situação se não partirmos para uma ação transformadora. Além disso, o processo de crescimento que se iniciou na terapia parece ter se expandido para o seu dia-a-dia, passando a fazer parte do seu cotidiano, ou, em outras palavras, ela parece estar levando ‘a terapia’ ou ‘a terapeuta’ para sua casa.

É interessante refletir também que o espaço dramático ao mesmo tempo em que favorece a ação, possibilitando a descoberta de respostas alternativas e inovadoras para as situações vividas, pode, em certos momentos, causar receios justamente por ser um espaço aberto a infinitas possibilidades, por se tratar do ‘como se’. Como Moreno salientou muitas vezes, embora o homem apresente um potencial para ser espontâneo desde seu nascimento, muitas vezes, devido a uma sociedade que cerceia tal capacidade, ele se torna extremamente ligado às conservas culturais e pouco espontâneo. Assim sendo, torna-se necessário criar meios para recuperar a espontaneidade.

No caso de Marília, ela demonstra estar gradualmente permitindo-se experimentar o novo (o espaço dramático), apesar de seus medos e receios. Outro ponto que seria importante considerar é a realização de um aquecimento adequado para a dramatização. Muitas vezes a imperícia na condução do aquecimento leva a uma atitude aversiva à dramatização. Entretanto, não tenho dados suficientes para tirar conclusões sobre esse aspecto.

A dualidade de Marília também se faz presente em um outro momento quando diz: “Uma coisa que acontecia quando eu chegava na terapia: uma parte queria vir e a outra não… Alguém ficou do lado de fora porque eu tinha receio. Apesar de eu ir fazer a terapia, eu acabava me boicotando porque eu não contava tudo. Chegou um determinado momento que eu até levei uma bronca: ‘o que você está fazendo aqui?’ ”

Marília mostra que no início ela não se apresentava por inteiro na terapia, havendo uma parte de si que ficava escondida com receio de se revelar. A impressão que dá é que, de alguma forma, ela sabia que a partir do momento que mostrasse o que estava encobrindo, não haveria mais como voltar atrás e nem como deixar as coisas do mesmo jeito, no mesmo lugar. Isso por um lado a motivava, sendo justamente o que a trazia para a terapia, mas por outro lado a assustava, fazendo com que ‘boicotasse’ a terapia, deixando de falar de coisas que lhe eram importantes. É interessante notar que Marília, ao comentar a ‘bronca’ que a terapeuta lhe deu, não parece se surpreender com essa atitude, demonstrando considerá-la como esperada e natural diante de seu comportamento.

No final da entrevista perguntei qual o peso que ela dava para a terapia em relação às transformações ocorridas e ela respondeu: “Crescimento a gente tem constantemente . Eu coloco um peso grande em relação à terapia pelo fato de poder estar observando as coisas que me acontecem e não estar reproduzindo novamente. Acho que o fato do choro, de eu chorar e não saber porque… Hoje eu sei que se eu tiver uma situação que eu não esteja confortável, eu vou acabar voltando…”

Apesar de admitir que o crescimento sempre ocorre, ela demonstra diferenciar aquele que é propiciado pela psicoterapia, atribuindo-lhe um grande valor. A terapia pôde lhe ajudar a perceber melhor os seus sentimentos e as situações que vivenciava e a partir disso encontrar respostas inovadoras para as mesmas, não se limitando a repetir um mesmo modo de se comportar.

Aqui surge de maneira nítida um dos objetivos centrais do psicodrama, que é o de ser capaz de encontrar respostas novas e satisfatórias para as situações e não se limitar a reproduzir formas estereotipadas. Em outras palavras, nos libertar de conservas culturais que nos aprisionam e permitir que a espontaneidade ressurja.

O fato de Marília voltar a falar do que percebeu a respeito do seu choro, faz pensar que este tenha sido um dos principais ganhos que obteve nessa terapia.

Ela encerra a entrevista, dizendo: “Acho que me pego em situações de impulso, quando eu vou parar e então… [me perguntar] o que está acontecendo. Até porque quando você está em conflito, você não está em conflito sozinha, você está em conflito com outras pessoas também. É muito tempo de terapia. É muito tempo.”

Constatei dois pontos importantes nesse trecho final. O primeiro diz respeito a um reconhecimento de Marília no que diz respeito aos seus ímpetos impulsivos e a sua atitude de parar para se consultar em relação à situação vivida.

Para Moreno a impulsividade é muito diferente da espontaneidade, pois na primeira não há aquecimento preparatório enquanto que na segunda o aquecimento é imprescindível. Na situação descrita, Marília percebe que está agindo sem prestar a devida atenção ao que está acontecendo, isto é, sem se aquecer, e tenta mudar a situação passando a se consultar. Podemos supor que ela está passando de uma atitude mais impulsiva para uma mais espontânea.

O segundo ponto que gostaria de ressaltar é o reconhecimento de Marília quanto à importância das relações interpessoais. Ela percebe que é necessário prestar atenção não só em si mesma, mas também no outro e na relação que se estabelece.

Este também constitui outro ponto central no pensamento de Moreno. Ele sempre considerou o homem como um ser em relação e por isso toda sua obra tem como objetivo compreender melhor as relações interpessoais e com isso descobrir formas de melhorar a qualidade das mesmas. O seu foco sempre foram as relações interpessoais e não o mundo intra-psíquico.
5.1.1. Impressões gerais
Marília procurou a psicoterapia em um momento de crise intensa e demonstra que a psicoterapia a auxiliou a superar essa crise. Quando iniciou a psicoterapia psicodramática, ela chorava muito e não compreendia o que a fazia chorar tanto. No decorrer do processo psicoterápico, ela consegue perceber os motivos do seu choro. Além de identificar melhor o que estava acontecendo consigo mesma, ela demonstra que a psicoterapia a impulsionou a transformar seu modo de agir, buscando não reproduzir atitudes que se mostraram de alguma forma insatisfatórias. Assim sendo, Marília foi se tornando menos apegada a determinadas conservas culturais, o que possibilitou que se comportasse de maneira mais espontânea. Nesse sentido podemos dizer que um dos objetivos do psicodrama foi atingido.

O seu relato demonstra que a dramatização, de maneira geral, e a técnica do espelho, em particular, foram bastante relevantes em seu processo psicoterápico e contribuíram de maneira significativa para os resultados atingidos. As dramatizações a mobilizavam muito, fazendo com que percebesse melhor o que estava vivendo e que buscasse mudar suas atitudes. A freqüente utilização da técnica do espelho propiciava a tomada de distância das situações vivenciadas e com isso uma percepção mais nítida do que estava acontecendo.

Se considerarmos as dificuldades apresentadas por Marília, entenderemos melhor porque essa técnica lhe foi tão útil. Marília foi buscar psicoterapia em uma fase em que chorava muito, mas que não conseguia entender o que a fazia chorar. Isso demonstra uma dificuldade em perceber a si próprio, em identificar o que se passa consigo mesmo. Isso sugere algum comprometimento na fase de reconhecimento do eu, em que a criança desenvolve a capacidade de se diferenciar do outro, percebendo seu próprio corpo e suas próprias vontades e sentimentos. A técnica do espelho tem justamente a função de propiciar a recuperação dessa capacidade.

Embora Marília reconheça os efeitos positivos das dramatizações e da técnica do espelho, ela demonstra sentir-se assustada e receosa em relação a elas, justamente por possibilitarem que ela depare de maneira mais direta com situações conflituosas.

A relação existente entre Marília e sua terapeuta se transformou bastante durante o processo psicoterápico. No início, Marília apresentava uma imagem muito idealizada da terapeuta, vendo-a como uma pessoa que não tinha problemas. A partir do momento em que conta para a terapeuta que o resultado do exame de H.I.V. foi positivo, passa a perceber a terapeuta como um pessoa humana que sente, que chora, que tem problemas. No primeiro momento, podemos dizer que a relação entre cliente e terapeuta era bastante transferencial na medida em que Marília não conseguia perceber as características reais e humanas da terapeuta e depositava nessa uma imagem de alguém que não sofre, que não tem dificuldades e que portanto não é humano. No segundo momento, ela passa a ter uma relação mais télica com a terapeuta, já que percebe a mesma de maneira mais realista. Assim sendo, podemos dizer que outro dos objetivos do psicodrama, que é transformar as relações transferenciais em télicas, foi atingido.

Marília demonstrou ter se sentido insegura em momentos em que ela e a terapeuta saíram temporariamente de seus papéis em função das circunstâncias ocorridas. Podemos cogitar que essa situação seja decorrente de uma dificuldade da terapeuta para retomar seu papel, criando uma situação dúbia em que a cliente já não sabia o que esperar da terapeuta.

Marília utilizou muitas vezes em sua entrevista a palavra ‘pensante’, dando a impressão de que a psicoterapia teria lhe propiciado apenas uma compreensão racional de suas experiências. Entretanto, se considerarmos o depoimento na sua totalidade, perceberemos que em vários momentos ela demonstra que a psicoterapia a mobilizava no sentido de transformar a sua realidade e não apenas explicá-la.

No depoimento de Marília não pudemos identificar de maneira clara a ocorrência da catarse de integração. Embora Marília admita que o dramático a mobiliza e que a terapia tem feito com que reflita sobre as situações vividas tentando transformá-las, ela não demonstra ter sofrido uma modificação significativa no seu modo de ver o mundo e de relacionar-se. Considerando isso, podemos pensar que ela esteja caminhando nesse sentido e que provavelmente já tenha passado por várias catarses parciais, mas que ainda não atingiu o cume desse processo.

Moreno fala que podem ocorrer várias catarses parciais, até que se chegue a uma catarse total. Ele enfatiza ainda que é pela “integração sintética de todos os elementos que pode ser obtida a catarse total”. (Moreno, 1946, p. 66). A partir disso, podemos dizer que esse objetivo psicodramático foi atingido parcialmente, já que há indícios de que ocorreram catarses parciais, mas não há evidências suficientes de que tenha ocorrido uma catarse de integração total. Levando em conta a classificação feita por Almeida (1982), podemos dizer que possivelmente esteja ocorrendo uma catarse de integração evolutiva.

 

5.2. Mônica
Mônica tem cerca de 40 anos, pertence à classe média e é solteira. Ela apresenta uma vida bastante dinâmica, repleta de atividades que preenchem quase todo o seu tempo. Gosta bastante de viajar e já conheceu várias partes do mundo. Além disso, gosta muito de estudar, buscando sempre se aprimorar realizando cursos. Ela começou a lecionar há mais de dez anos e continua exercendo essa atividade até hoje.

Ao chegar ao consultório, Mônica mostra-se bastante descontraída e faz observações sobre minha sala. Ela caminha explorando o espaço ainda desconhecido e diz ter gostado do local. Quando lhe digo que é bom sentarmos numa posição próxima para que o gravador fique perto das duas e começo a mover minha poltrona para ficar mais perto, ela prontamente resolve sentar nas almofadas, diminuindo a distância.

Mônica apresenta uma característica que a diferencia das demais entrevistadas: já passou por diversas modalidades de psicoterapia tais como a reichiana, o psicodrama (individual e grupal) e a psicanálise. Em sua entrevista faz comentários sobre o que cada uma dessas abordagens lhe propiciou. Além disso, a própria abordagem psicodramática, foi realizada com duas terapeutas diferentes, o que enriquece seu depoimento.

Com a primeira psicodramatista, ela realizou as duas modalidades de psicoterapia, sendo que iniciou com psicoterapia individual e depois passou a fazer as duas simultaneamente, totalizando um período de três anos. Ela encerrou essa psicoterapia há aproximadamente 18 anos. Com a segunda psicodramatista, realizou um processo semelhante, que durou cerca de três anos e se encerrou há aproximadamente sete anos.

Ela começa a relatar a história de seu processo terapêutico falando de como estava mal antes de começar sua primeira psicoterapia (psicodramática) há 21 anos atrás. Conta que ficou quase um ano em depressão profunda, que se sentia muito dominada pelos pais. Havia tentado o suicídio, parado de estudar, de trabalhar e até de tomar banho. Durante esse período, foi encaminhada a vários psiquiatras, mas não aceitava o tratamento. Ela disse: “Eu não me abria, eu não aceitava. Eu queria um terapeuta novo, bonito, um lugar alegre”. Foi aí que ela resolveu ir à psicoterapeuta de uma moça que conhecera em uma viagem, mas essa terapeuta só atendia pessoas até 18 anos e resolveu encaminhá-la para outra terapeuta do mesmo consultório.

Com relação a esse episódio, Mônica desabafa: “Eu fiquei com muita raiva e perguntei porque ela me atendeu e ela falou que jamais deixaria uma pessoa sem saber o que era e me indicou a ‘Luiza’ e eu disse que não iria. Só que ela fez que ‘Luiza’ me atendesse naquele mesmo dia. Eu só esperei a ‘Luiza’ sair da sessão anterior. Eu me encantei com a ‘Luiza’ . Comecei a fazer três vezes por semana [individual]. Foi um processo complicado, mas eu acho que com a ‘Luiza’ eu cresci.” Posteriormente, ela volta a falar sobre esse episódio dizendo: “Se eu saísse aquele dia tendo sido rejeitada pela terapeuta , seria bem complicado.”

Podemos perceber que Mônica encontrava-se muito fragilizada necessitando de um ambiente bastante acolhedor para que pudesse se sentir suficientemente segura e amparada para poder solicitar e aceitar a ajuda do outro. Poder confiar no outro parecia ser uma questão fundamental. A atitude da terapeuta Sueli ao demostrar um interesse genuíno por Mônica e fazer um encaminhamento imediato foram cruciais para assegurar o comprometimento de Mônica com o tratamento. Além disso, a flexibilidade e disponibilidade da terapeuta ‘Luiza’ para atendê-la imediatamente também foram fundamentais para que Mônica se sentisse suficientemente acolhida e aceita. Provavelmente, o que Mônica estava reivindicando quando descrevia como ideal, um terapeuta novo, bonito e alegre, fosse justamente o que encontrou com essas duas terapeutas: um espaço seguro para crescer, em que pudesse descobrir um mundo mais bonito e alegre. A freqüência de três vezes por semana, que não é muito comum na psicoterapia psicodramática, provavelmente foi indicada em função de a paciente se encontrar em um momento de crise intensa e muito fragilizada.

Embora Mônica tenha começado seu processo com sessões individuais, inicialmente ela fala de maneira muito breve sobre a psicoterapia individual e passa em seguida a relatar sua vivência no grupo, como se “pulasse” um pedaço da história. O grupo parece ter sido uma vivência marcante. Ela reclama bastante de que as pessoas do grupo eram muito diferentes dela, “tinha três homossexuais; tinha uma que ia abortar porque tinha medo do marido rejeitá-la, quando ela ficasse gorda; tinha uma que ela e a mãe tinham o mesmo amante porque a mãe obrigava. Eu sabia que eu nunca ia ter estes problemas na minha vida… Realmente não era uma turma para mim”.

Sua descrição me leva a crer que o grupo lhe causou um impacto muito intenso, em que “a diferença” e o “diferente” se tornaram o tema básico. Possibilitou que deparasse com um outro universo, em que as regras eram, ou pelo menos pareciam ser, muito estranhas, provocando um certo “choque” de valores.

Em certo ponto de seu relato, resolvi perguntar se o grupo não ajudou muito, para checar a impressão, até aquele momento, de que sua avaliação a respeito dele era muito negativa. Para minha surpresa, surge aí um reconhecimento de que o grupo havia ajudado de alguma forma: “Até ajudou um grande período. Eu era muito infantil. Conheci coisas novas. Acho que aprendi a quebrar tabu. Gostei de algumas pessoas que eram homossexuais ali, fiquei amiga, mas a problemática não era a minha. Eu tinha dificuldade, eu era extremamente inexperiente sexualmente, amorosamente”

O grupo lhe favoreceu ampliar sua rede sociométrica e questionar determinadas regras, tornando-se menos apegada a certas conservas culturais. A concepção que tinha, por exemplo, a respeito dos homossexuais e da possibilidade de interagir com eles transformou-se bastante ao ponto de poder se tornar amiga deles. De certa forma, podemos dizer que essa conserva cultural pôde ser questionada e reavaliada a partir da convivência com a homossexualidade dos membros do grupo. À medida que Mônica foi se desprendendo dessa conserva cultural, tornou-se possível responder de maneira mais espontânea à situação, abrindo-se para conhecer coisas novas.

Moreno enfatizou muitas vezes em sua obra que o homem estava se apegando demais às conservas culturais, tornando-se necessário um resgate da capacidade espontânea. Levando isso em conta, podemos dizer que um dos objetivos da psicoterapia psicodramática foi atingido nesse processo terapêutico. Entretanto, é importante frisar que nesse caso o cumprimento desse objetivo parece ter se limitado a determinadas conservas culturais que dificultavam a aproximação de Mônica com alguns membros do grupo, já que em seu relato não aparecem outras áreas de sua vida em que esse objetivo tenha sido alcançado. Além disso, quando ela diz que a problemática não era a sua, demonstra estar se queixando de que faltou oportunidade ou espaço para abordar temas que eram importantes e significativos para ela. Nesse sentido, podemos dizer que embora o objetivo central do psicodrama, o resgate da espontaneidade, tenha ocorrido nessa psicoterapia, o alcance do mesmo foi restrito.

Não podemos desconsiderar também que Mônica traz desde o inicio de seu relato uma sensação de grande desconforto e insatisfação com o grupo, como se este não lhe fosse adequado, como se fosse uma roupa que não lhe servisse direito. Como podemos entender essa queixa?

Uma primeira possibilidade seria pensar que houve um erro de encaminhamento, em que a terapeuta não teria considerado devidamente as características e o momento que Mônica estava vivenciando, ao introduzi-la nesse grupo. Isso faz sentido se considerarmos que, segundo Mônica, os comportamentos e problemas apresentados pelo grupo lhe pareciam muito distantes de sua realidade. É necessário que haja um certo equilíbrio entre o grau de diferenças e semelhanças existentes num grupo para ele funcionar bem.

Quando as diferenças entre os integrantes de um grupo são muito exacerbadas, a troca se torna mais difícil, pois falta afinidade entre eles. Por outro lado, se todos os membros do grupo são muito parecidos, haverá pouca oportunidade para trabalhar conflitos, surgindo um clima de monotonia e “mesmice” que não favorecerá o crescimento. No grupo em questão, Mônica demonstrou sentir-se como um “peixe fora da água”, que quase não encontrava similaridades entre a sua vida, o seu cotidiano, e o dos outros membros do grupo. Havia apenas um rapaz do qual sentia-se mais próxima.

A segunda possibilidade é que o incômodo de Mônica ocorrera justamente porque, embora aparentemente diferentes, as tramas apresentadas pelos outros membros do grupo apresentassem uma semelhança muito grande com suas vivências, mudando apenas a “fachada”. Nesse sentido, é importante observarmos as temáticas, trazidas pelo grupo, que despertaram a atenção de Mônica: a homossexualidade, o aborto, o medo de rejeição, a preocupação com a estética do corpo, a relação de dominação-submissão entre mãe e filha e a indiferenciação dos desejos sexuais das mesmas.

Merece destaque o fato de que todos os temas estão de alguma forma relacionados à sexualidade e que esta seja justamente uma área em que Mônica se considera extremamente inexperiente. É possível que este seja um motivo importante de seu incômodo no grupo. Provavelmente, os integrantes, ao relatar suas vivências, mobilizavam questões e problemáticas sexuais de Mônica e deviam despertar também uma sensação intensa de falta de vivência nessa área, em função da diversidade de experiências relatadas.

Poderíamos comparar o grupo como uma labareda que de repente iluminou um aspecto da vida de Mônica que não estava sendo visto nem vivido. Não quero dizer com isso que ela quisesse ter exatamente as mesmas experiências dos outros membros do grupo, mas apenas que o grupo, com sua diversidade de temas sexuais, devia exacerbar a sensação de falta de experiência sexual e amorosa.

Acredito que as duas possibilidades apresentadas não são excludentes, mas sim complementares entre si. O encaminhamento não foi o ideal, já que Mônica sentiu uma dificuldade acentuada de se identificar e se integrar a esse grupo, sentindo-se “deslocada”. Isso provavelmente limitou o aproveitamento de Mônica nesse grupo. A sua dificuldade de integração está diretamente relacionada ao fato de o grupo apresentar valores muito diferentes e, além disso, abordar explicitamente uma temática que era difícil de ser tocada por ela. Podemos perceber uma certa dialética neste ponto: o que a afastava do grupo era justamente o que a aproximava.

A sexualidade, sem dúvida, era uma temática importante na terapia de Mônica, mas a forma como foi colocada pelo grupo serviu apenas para acentuar sua dificuldade de elaborar esse tema. O grupo tocava numa temática difícil, delicada para ela, de maneira muito direta, sem rodeios, narrando comportamentos que pareciam distantes dos padrões aos quais estava habituada. Isso a mobilizava intensamente, fazendo com que reagisse de maneira defensiva em relação ao grupo, rejeitando-o. Ao que tudo indica, se houvesse pelo menos mais uma pessoa no grupo que fosse “mais inexperiente sexualmente”, isso a ajudaria pois não se sentiria tão sozinha.

Ao falar do grupo, Mônica se referiu muito mais às relações com os outros membros do que aos efeitos propiciados por essa abordagem. Isso me faz pensar que esses efeitos não tenham sido tão significativos assim. Por outro lado, se considerarmos que Moreno atribuía ao grupo uma importante função terapêutica, podemos pensar que a constante alusão de Mônica ao grupo sirva justamente para reforçar o aspecto terapêutico. Entretanto, a forma como se refere aos integrantes do grupo demonstra muito mais um incômodo pelo fato de serem diferentes dela do que uma possível contribuição dos mesmos ao seu crescimento. Ao falar do grupo, ela aponta apenas para o fato de ter se tornado menos preconceituosa, principalmente com os homossexuais, não fazendo referências, explicitas ou implícitas, a outros benefícios. Assim sendo, acredito que o fato dela falar menos dos efeitos desta psicoterapia de grupo indique realmente que estes tenham sido bastante restritos.

Em outros momentos da entrevista, Mônica volta a falar desse grupo e deixa claro que a visão que tinha a respeito do grupo não se modificou, apesar de já terem se passado muitos anos. Ela diz: “eu era muito nova, mas eu acho que eu pensaria a mesma coisa hoje… Aquilo não era grupo para mim com vinte anos de idade e muito infantilizada e não seria ainda hoje”.

Depois de uma pausa, resolvi perguntar a respeito do período de psicodrama individual (bipessoal) ao qual havia se referido muito pouco até aquele momento. Então, Mônica expressa sua impressão: “Eu cresci. O período de individual, eu valorizo muito. Foi o período que a Mônica ficou pronta para viver, porque em 77 eu não tinha a menor condição emocional de enfrentar o mundo… Eu acho que foi o que me pôs de pé mesmo. Enfrentar uma mãe dominadora, um pai mais desligado”. Mônica reconhece que a psicoterapia psicodramática individual lhe propiciou uma grande transformação, lhe fortalecendo para lidar com a realidade à sua volta.

Ela atribui uma importância muito maior à psicoterapia individual do que à experiência de grupo. Isso se torna evidente se observarmos a maneira direta e clara com que ela relaciona essa psicoterapia ao crescimento, à vida e à força para enfrentar o mundo. Ao se referir a psicoterapia de grupo, ela não identifica ou demonstra de maneira tão direta e tão convicta os benefícios obtidos. A imagem que traz de ter sido colocada de pé parece fazer bastante sentido se pensarmos que Mônica se encontrava extremamente frágil, tendo tentado o suicídio e largado suas atividades cotidianas. No decorrer do processo terapêutico, começou a retomar suas atividades e a se sentir mais fortalecida, isto é, começou de alguma forma a sustentar o peso do próprio corpo, a ficar de pé, a andar com as próprias pernas. Além disso, nesse trecho ela identifica de maneira precisa dois aspectos nos quais a terapia lhe ajudou: enfrentar uma mãe dominadora e um pai desligado. É importante notar que ‘aprender a enfrentar uma mãe dominadora’ era um dos temas trazidos por uma moça que participou do grupo de terapia com ela. Isso mostra mais uma vez que os problemas apresentados pelo grupo não deviam ser tão diferentes dos que ela apresentava.

Mônica relata também que quase largou a faculdade de pedagogia, mas que com a terapia pode perceber que sua dificuldade era apenas em uma matéria e não no curso inteiro, como tinha ocorrido com a faculdade que cursou anteriormente. Aqui, ela demonstra ter conseguido avaliar de maneira mais apurada o grau de suas dificuldades, tornando-se assim mais fácil lidar com as mesmas.

O fato dela não perceber de maneira clara qual era a abrangência de suas dificuldades indica que havia algum obstáculo que obstruía sua capacidade de avaliar a situação que estava vivendo. Esses obstáculos que limitam nossa percepção e dificultam nossa relação com o outro foram denominados “transferência” por Moreno. Considerando isso, podemos dizer que haviam elementos transferenciais que impediam Mônica de perceber o grau de suas dificuldades, fazendo com que as enxergasse de maneira exacerbada. Durante o processo terapêutico, essa transferência parece ter sido dissolvida ou pelo menos minimizada, permitindo que sua capacidade télica fosse desobstruída no referido contexto.

Para Moreno, a psicoterapia psicodramática deve procurar eliminar os elementos transferenciais, favorecendo a manifestação da tele. Assim sendo, temos aqui um exemplo, uma situação, em que um importante objetivo do psicodrama foi atingido.

Considerando todas as transformações ocorridas podemos concluir que essa psicoterapia psicodramática individual foi bastante eficaz, lhe trazendo muitos benefícios.

Aproximadamente dez anos depois (e tendo realizado nesse intervalo três anos de psicoterapia reichiana), Mônica voltou a fazer psicoterapia psicodramática, só que agora com outra terapeuta. Ela relata: “Resolvi fazer terapia, mas aí sem uma emergência, um processo diferente. Eu me sentia desconfortável e esse desconfortável era sinal de que eu precisava dar um mexida, mas nada que eu não pudesse tocar a vida”.

Aqui fica claro que as necessidades e objetivos de Mônica em relação à terapia haviam mudado. Na primeira terapia existia uma necessidade mais básica e mais urgente, um pedido de ajuda para conseguir sobreviver às situações, um “grito de socorro”. Na segunda, Mônica se encontrava mais segura, mais fortalecida, já estava “de pé”, conseguia realizar as atividades cotidianas da vida (trabalhar, estudar, etc.), mas ainda sentia falta de outras coisas.

O fato de Mônica ter procurado novamente a psicoterapia psicodramática sugere que a primeira experiência com essa abordagem tenha lhe proporcionado benefícios significativos.

Mônica, por conta própria, resolveu fazer uma classificação de suas psicoterapias: “primeiro lugar, Luiza (psicoterapia psicodramática); segundo lugar, Débora (psicoterapia reichiana); terceiro lugar, o psiquiatra (psicoterapia analítica); quarto lugar, Miriam (psicoterapia psicodramática). Os quatro processos terapêuticos criaram modificações, mas nessa ordem”.

É interessante notar que a psicoterapia psicodramática foi colocada em primeiro e em último lugar, dando a impressão de que o mais importante para ela não foi a abordagem terapêutica em si. O fato de ter procurado terapeutas de várias abordagens também parece reforçar essa idéia. A partir disso, podemos pensar em outros fatores que podem ter tido uma relevância maior nas suas escolhas, tais como: a pessoa do terapeuta, o momento em que foi procurar cada terapia e o que estava buscando em cada um desses períodos e até mesmo a competência dos terapeutas.

Quando lhe perguntei que atitudes da terapeuta a tinha ajudado de maneira mais efetiva, ela respondeu: “A Luiza começou muito colocando que ela também era um ser humano, que ela também tinha problemas e alguns parecidos com os que eu tinha ou já tive. Eu acho que esta aproximação era extremamente carinhosa. Eu lembro que quando eu entrava, ela dava aquele beijo carinhoso de receber. No final não, ela era até mais enérgica. Eu não chorava, eu fiquei anos e anos sem poder chorar. Aí teve um dia que eu destrambelhei, não parava mais. Ela ficou comigo. ”

Aqui aparece novamente a grande importância que teve o acolhimento em seu primeiro processo terapêutico. Ter se sentido bastante querida pela terapeuta contribuiu bastante para que se envolvesse com o processo terapêutico. O fato de perceber a terapeuta como mais enérgica na saída deve estar relacionado ao trabalho realizado nas sessões, nas quais Mônica provavelmente deparou com temas e questões que lhe incomodavam. Ela deve ter ouvido muitas observações e apontamentos da terapeuta que, embora fossem importantes e pertinentes, eram difíceis de serem ouvidos, lhe fazendo enxergar um outro lado de sua terapeuta, que não era só acolhedor, mas também firme e afirmativo.

Um outro aspecto que parece ter sido bastante importante para Mônica é que Luiza mostrou-se como um ser humano, o que favoreceu a aproximação das duas e fez com que Mônica se sentisse mais compreendida, já que a pessoa que estava à sua frente também tinha problemas, dificuldades podendo entender como estava se sentindo. Era um ser humano e como tal podia entender outro ser humano. A forma como a terapeuta colocou-se fez com que Mônica se sentisse menos solitária em seu sofrimento e pudesse expressar mais facilmente sentimentos que há muito tempo havia guardado.

A descrição que Mônica faz de sua relação com Luiza remete à própria concepção que Moreno tem da relação entre terapeuta e cliente, segundo a qual ambas as partes são capazes de fazer uma estimativa de quem é o outro, fato essencial para a própria continuidade e eficácia do processo psicoterápico (Moreno,1959b). Nesse sentido, o fato de Mônica referir-se à Luiza como um ser humano faz pensar que a tele estava bastante presente nessa relação. Ela conseguia enxergar Luiza como uma pessoa real, que faz parte desse mundo e que tem problemas como qualquer outra pessoa e não como uma figura idealizada, que não sente medos nem tem dificuldades, como costuma ocorrer em muitas relações transferenciais com terapeutas. Isso não descarta a possibilidade de existirem elementos transferenciais nessa relação, mas nos leva a pensar que existe uma participação significativa da tele na relação.

Continuando a falar sobre as atitudes das terapeutas que tinham lhe ajudado, Mônica conta que “sua segunda terapeuta psicodramatista, Miriam, uma vez lhe disse que, quando era o seu dia de individual, ela tinha que respirar três vezes, porque Mônica não era uma paciente muito simples, que ela tinha que “recarregar as baterias” para recebê-la, mas que gostava muito da cliente assim mesmo.

É interessante notar que a cena trazida aponta novamente para o aspecto humano da terapeuta, em que esta se coloca como alguém que também tem limites, precisando “recarregar as baterias”, e que apresenta uma certa humildade ao dizer que a paciente não é simples, deixando transparecer suas dificuldades com a mesma.

Moreno coloca claramente em sua obra que tanto o cliente como o terapeuta devem ter a liberdade de expressar seus sentimentos no contexto terapêutico e que ambos poderão esclarecer juntos o significado do que esteja ocorrendo, que pode estar relacionado tanto com a própria relação quanto com suas histórias de vida (Moreno, p. 1959b, p. 21). Considerando isso, podemos dizer que a atitude da segunda psicodramatista, ao falar o que estava sentindo em relação à cliente, é condizente com a proposta de Moreno. Entretanto, como não temos dados sobre o que foi discutido ou trabalhado a partir disso, tornou-se difícil avaliar se ocorreram outros efeitos terapêuticos específicos decorrentes dessa atitude.

Pergunto, então, se a experiência de grupo com Miriam havia sido diferente do outro grupo. Ela responde: “Ah, sim. Era um grupo afins, de pessoas com coisas muito mais próximas das minhas. Foi um grupo onde houve um envolvimento entre as pessoas muito maior e no final eu achei que estava meio morninho e aí eu saí.” É interessante notar que embora Mônica reconheça que nesse grupo havia justamente o que sentia falta no grupo anterior, a afinidade, ela se queixa agora de que o grupo ficou mais monótono (“morninho”). Podemos pensar que se por um lado, ela encontrou pessoas com as quais pode se sentir mais a vontade e mais próxima, podendo inclusive se identificar com os problemas alheios, por outro lado, lhe faltou num certo momento do grupo, aquilo que tinha em excesso na primeira experiência, isto é, o diferente, o conflito.

Mônica ao continuar seu relato a respeito do último grupo, fala bastante das amizades que fez e também das pessoas de quem não gostava. Resolvo então perguntar o que, além da amizade, o grupo mobilizou e de que outra maneira o grupo tinha lhe ajudado. Ela respondeu: “Eu não sei também explicar porque não foi tão marcante quanto o outro, mas eu acho que as coisas lidadas neste segundo grupo eram coisas mais próximas da socialização que eu tinha no meu mundo. Eram pessoas iguais àquelas com as quais eu convivo, com as falhas e defeitos, com medos e não-medos, erros e acertos… Mas eu acho que eram pessoas comuns que você podia soltar na rua que ninguém ia dar cabeçada por aí. Eu acho que eram pessoas que estavam crescendo mesmo, trabalhando coisas sérias, mas não tinha ninguém surtado lá, por isso que eu gostava do grupo. Eu achava que era um grupo saudável entre aspas, com problemas mortais e o outro, eu não achava os problemas mortais.”

Aqui, além de reforçar a importância da similaridade existente entre os membros do grupo, ela aponta para o fato de que o grupo era um espaço onde era possível abordar questões significativas e que propiciavam crescimento. Quanto a isso, ela menciona que as pessoas do grupo estavam “crescendo mesmo”, mas não se refere em nenhum momento ao seu próprio crescimento ou a situações que tenham lhe propiciado transformações. Isso faz pensar que esse grupo não tenha lhe propiciado transformações ou que estas tenham sido muito insignificantes a ponto de não terem sido lembradas por ela.

Após uma pausa, pedi à Mônica que falasse mais sobre a psicoterapia individual realizada com a segunda psicodramatista. “A Miriam para mim foi mais equilíbrio do que transformação. Era uma troca de idéias, um esclarecimento dos meus conflitos, eu acho que ficaram mais claros, mais alinhados, mas não sei se eu cheguei a me transformar em alguma coisa. Tudo que eu era quando eu comecei, eu terminei do mesmo jeito, mas eu acho que eu esclareci coisas, mas não foi um processo transformacional. Não foi! [fala de maneira enfática]”.

Embora eu tenha perguntado a respeito da psicoterapia individual, Mônica responde utilizando o nome da terapeuta que realizou tanto a psicoterapia individual como a grupal, demonstrando estar se referindo aos dois processos psicoterápicos. Quando diz que terminou do mesmo jeito que começou, ela está se referindo a um período em que realizou as duas modalidades de psicoterapia e não a uma das psicoterapias em particular. Assim sendo, podemos considerar que a resposta de Mônica abarca tanto a psicoterapia individual quanto a grupal realizadas com a segunda terapeuta.

É interessante notar que, embora Mônica tenha dito anteriormente que todas as suas terapias tenham provocado transformações, mesmo que em níveis diferentes, aqui ela nega o valor transformacional de uma das psicoterapias, talvez por ser justamente a que ela havia colocado em quarto lugar, não tendo sido tão significativa para ela. Entretanto, acredito que possa haver uma outra razão para isso: provavelmente a transformação que ocorreu, e que foi de alguma forma reconhecida por Mônica, tenha sido uma transformação em termos de percepção de seus conflitos e que a transformação que Mônica não reconhece seja a transformação em termos de ação, de mudanças nos comportamentos e na maneira de interagir com outras pessoas. As expressões utilizadas por Mônica (esclarecer, alinhar, troca de idéias) são bastante significativas nesse sentido, pois enfatizam o aspecto intelectivo. O termo equilíbrio, por sua vez, foi colocado por Mônica como o contraponto de transformação, transmitindo a idéia de estabilidade. Além disso, quando diz que saiu da terapia do mesmo jeito que entrou, Mônica deixa transparecer uma queixa, uma reclamação, em relação a essa terapia como se algo tivesse faltado. O que seria?

O tipo de transformação descrita por Mônica é considerada por Moreno como sendo muito limitada. Para ele, é essencial que a transformação ocorra não só no plano mental mas também no plano da ação. A catarse que é provocada pelo psicodrama é uma catarse da ação. (1959, p.106)

Tomando como base a teoria de Moreno e analisando o relato de Mônica, podemos dizer que não ocorreu nessa terapia uma catarse de integração.

Perguntei se ela considerava que as mudanças que se sucederam durante o período que ela fez psicoterapia psicodramática ocorreriam naturalmente na sua vida ou se a terapia teve realmente um peso importante nessas transformações. Antes mesmo de eu terminar de formular a pergunta, Mônica já dizia categoricamente: “Nunca!” e depois continuou “Nunca aconteceriam sem essas terapias mais importantes e acho que eu sempre vou ser uma pessoa que vou fazer uma terapia de tempos em tempos porque eu acho que terapia é crescimento… é inclusive a linha de transformações que a gente vai vivendo.. Eu acho que uma pessoa conformada não precisa, ela não tem conflitos. Eu sempre estou querendo fazer mais, conhecer mais. Isto traz inquietações. Algumas buscas são ótimas, outras são cabeçadas. Mas reconstrução como pessoa, eu acho que foi a primeira e a atual.”

Embora tenha me referido à psicoterapia psicodramática, Mônica ao responder se refere às terapias que considerou mais importantes em sua vida — a primeira (psicodramática) e a última (psicanalítica), atribuindo a essas um peso maior nas mudanças alcançadas. Ela atribui um grande valor à psicoterapia em geral, enfatizando o crescimento possibilitado pela mesma. Nesse trecho, ela demonstra ter convicção de que a terapia contribuiu muito e vai continuar contribuindo para enriquecer a sua vida, ajudando-a a lidar com conflitos.

No final da entrevista, perguntei como ela tinha vivenciado a dramatização e que efeitos esta lhe proporcionava. Ela respondeu: “Eu tinha muita resistência, tentava escapar o máximo que podia. Quando eu entrava, mexia, mas eu me controlava muito. Detestava conversar com almofada. Mudar de papel, eu nunca gostei, eu sempre resisti. Achava mais fácil no grupo porque os personagens eram dos outros, não meus. Eu tinha medo, medo de dramatizar. O meu medo era de me descontrolar, que me acompanha toda vez que eu choro. Eu tinha muito medo do descontrole, tanto que quando eu choro é um choro meio alucinante… Ou é 8 ou 80… Eu não gosto de dramatizar, gosto de fazer teatro. Era catártico, uma bela limpada, aliviada, mas foi muito poucas vezes que eu entrei numa dramatização na individual.”

Apesar de reconhecer alguns efeitos positivos da dramatização, Mônica demonstra sentir-se muito assustada e ameaçada por ela, procurando evitá-la o máximo possível. Considerando que Mônica se apresenta como alguém que procura controlar muito as próprias emoções, ela deve se sentir realmente ameaçada no espaço dramático, pois nesse não há script e nem sequer se sabe o rumo que o drama irá tomar. Trata-se de um espaço aberto, onde quase tudo é possível. Assim sendo é mais fácil se descontrolar e expressar emoções.

Quando ela diz que prefere fazer teatro, é fácil entender porque, nesse caso, o ator conhece o texto a ser interpretado, tem mais controle sobre a situação, enquanto que no psicodrama ator e autor se misturam, se entrelaçam numa mesma pessoa. A cena dramática é construída pelo protagonista e está relacionada de alguma forma com sua vida. A partir disso, é possível entender também porque era mais fácil para Mônica desempenhar papéis no grupo, já que lá ela podia desempenhar papéis que não estavam ligados diretamente a ela, mas sim a outro membro do grupo que fosse protagonista.

Outro ponto importante é que Mônica admite ter participado poucas vezes de dramatizações nas psicoterapias psicodramáticas individuais que realizou. Considerando que a dramatização é um elemento inerente ao psicodrama, isso aponta para uma descaracterização do mesmo.

Nesse caso, a pouca dramatização pode indicar que o terapeuta desistia facilmente de seu método diante dos obstáculos colocados pela cliente. Se o terapeuta estivesse bastante convicto do método que escolheu provavelmente procuraria sanar as dificuldades e mostraria, com seu trabalho, os benefícios e as vantagens do método dramático. Entretanto, quando também não temos essa convicção, não conseguimos transmitir segurança com relação ao nosso trabalho e os receios dos clientes encontram ressonância.

É importante não esquecer que o dramático também é um espaço aberto para o terapeuta. Quando um terapeuta começa a dirigir uma cena, ele não sabe que rumo ela irá tomar, sendo necessário contar com a sua própria espontaneidade. Se ela estiver muito bloqueada poderá evitar o dramático ou ainda tentar controlar o rumo da cena, interferindo demasiadamente.
5.2.1. Impressões gerais
Como Mônica realizou psicoterapia psicodramática individual e grupal com duas terapeutas, optei por apresentar as conclusões referentes a cada uma separadamente para evitar confusões. É importante relembrar que, com as duas psicoterapeutas, a psicoterapia de grupo foi realizada concomitantemente à individual.

1 - Primeira psicoterapia psicodramática individual (terapeuta Luiza)

Essa psicoterapia propiciou muitos benefícios à cliente. Possibilitou que retomasse suas atividades cotidianas e que se fortalecesse para lidar com a realidade à sua volta. Ela conseguiu voltar a desempenhar papéis que havia abandonado. Quanto ao papel de estudante, foi capaz não só de retomá-lo, mas de buscar uma condição mais satisfatória, escolhendo um curso de que gostasse mais. Além disso, transformou sua forma de desempenhar esse papel, redimensionando as dificuldades encontradas.

A postura humana da terapeuta é condizente com a abordagem psicodramática. Entretanto, no relato da cliente, não aparecem referências a dramatizações ou a técnicas psicodramáticas que tenham sido utilizadas. Além disso, a própria cliente afirma que participou poucas vezes de dramatizações na individual. Isso faz pensar que um elemento importante do psicodrama foi negligenciado.

2 – Primeira psicoterapia psicodramática grupal (terapeuta Luiza)

O relato de Mônica demonstra que os benefícios propiciados por essa psicoterapia foram bastante limitados. Parecem ter se restringido ao questionamento de algumas conservas culturais, como, por exemplo, a sua forma de lidar com a homossexualidade.

O seu depoimento nos leva a pensar que não houve catarse(s) de integração nessa psicoterapia, já que ela não reconhece que o grupo tenha lhe propiciado uma mudança significativa em seu modo de agir e queixe-se de que os temas abordados não lhe diziam respeito. A descrição que faz do grupo, como algo que lhe é estranho e ao qual não pertence, sugere que ela realmente não entrou nesse grupo, não passou a fazer parte dele e conseqüentemente, não ingressou de fato na psicoterapia de grupo.

Os temas trazidos pelo grupo parecem ter lhe mobilizado bastante. Entretanto, essa mobilização não parece ter contribuído para a elaboração de conflitos e temas relevantes para Mônica. As temáticas apresentadas pelo grupo provocaram uma postura muito defensiva na cliente, o que dificultou que esta pudesse obter maiores benefícios terapêuticos.

3 – Segunda psicoterapia psicodramática individual (Miriam)

Nessa psicoterapia, a cliente conseguiu esclarecer alguns conflitos, mas não conseguiu transformar seu modo de ser e de agir. Nesse sentido, podemos dizer que o benefício foi muito limitado. A própria cliente sugere que essa psicoterapia não lhe propiciou transformações, “tendo saído do mesmo jeito que entrou”. Isso faz com que refutemos a hipótese de ter ocorrido catarse de integração, já que a transformação é um requisito da mesma.

No seu depoimento não aparecem comentários sobre dramatizações realizadas e nem mesmo sobre técnicas utilizadas nessa psicoterapia. A própria cliente admite que participou poucas vezes de dramatizações. Assim sendo, podemos dizer que também faltou um elemento próprio do psicodrama nessa psicoterapia.

Por outro lado, podemos dizer que a postura humana da terapeuta, descrita pela cliente, é característica do psicodrama.

4 – Segunda psicoterapia psicodramática grupal (Miriam).

Mônica consegue se identificar com os problemas trazidos pelos outros membros desse grupo e em função disso consegue se integrar no mesmo. Apesar disso, ela não reconhece que essa psicoterapia tenha feito com que mudasse seu modo de agir. Isso sugere que não tenha ocorrido catarse de integração nessa psicoterapia.

Quanto às dramatizações, a cliente relata que interpretava personagens de histórias de outros membros do grupo, mas não relata nenhuma situação em que tenha sido protagonista.
5.3. SARAH
Sarah é uma senhora que tem cinqüenta e cinco anos e que pertence à classe média. Ela esteve casada durante catorze anos, teve três filhos e separou-se aos trinta e sete anos. Trabalhou durante muitos anos na área de vendas. Atualmente não está trabalhando e tem dedicado grande parte de seu tempo aos seus filhos e netos. Nas horas vagas costuma ir ao cinema, ler ou jogar cartas.
Quando liguei para marcar a entrevista, ela sugeriu que fosse em sua casa por estar cuidando de sua netinha de seis meses e também por não estar se sentindo muito disposta para andar. Falei, então, da minha preocupação em garantir sua privacidade, já que estaríamos conversando sobre o seu processo psicoterápico. Ela disse que nesse caso era melhor ser em outro lugar pois sua casa “era como um ponto de ônibus, toda hora chega alguém” e se dispôs a ir ao meu consultório apesar da distância.
Ela mostrou-se bastante solícita durante toda a entrevista, propondo por exemplo que o gravador ficasse em seu colo para gravar melhor e perguntando se a forma como estava relatando estava boa ‘para mim’ A voz de Sarah é pausada e muito conectada na emoção, nos sentimentos do que está relatando. Além disso, durante o seu depoimento, a história de vida de Sarah parece se misturar com a história de seu processo terapêutico. Muitas vezes, ela começa a falar da terapia e passa a narrar fatos marcantes de sua vida, como se a terapia tivesse percorrido de tal forma sua história de vida que fosse inevitável fazer esse percurso.
Sarah realizou psicoterapia psicodramática de grupo durante aproximadamente três anos e meio. Antes de ingressar no grupo, realizou apenas uma sessão individual e, durante todo o processo, solicitou somente mais uma sessão bipessoal. Ela encerrou essa psicoterapia há aproximadamente cinco anos.
Ela começa contando que um de seus filhos estava fazendo terapia e que muitas vezes ela era chamada para participar dos acontecimentos. Ela continua dizendo: “Coincidiu que nesta época a minha mamãe morreu. Eu não imaginava que a morte da mamãe fosse mexer tanto comigo. Então naquele período após a morte da mamãe eu me senti muito mal, muito velha, muito perdida e não podia ouvir a voz da minha irmã e não sabia porque. Agora eu já posso falar de tudo isto porque já passou. Então, como eu já tinha contato com a terapeuta do meu filho, eu fui falar com ela, pedir um socorro, ver se ela podia me ajudar”. Mais adiante, ela diz: “Eu não suportava ouvir a voz de minha irmã. Ela morava no mesmo terreno que eu, eu convivia com ela. Eu a tinha como uma outra mãe”
Sarah deixa claro que foi buscar terapia em um momento de crise intensa, que foi desencadeada pela morte de sua mãe. Ao descrever como estava se sentindo, ela utiliza várias vezes a palavra ‘muito’ de modo a ressaltar a dimensão de seu sofrimento. Além disso, ela também se queixa de não suportar mais ouvir a voz de sua irmã, demonstrando que isso lhe parecia muito estranho, por considerar que gostava bastante dela, até mesmo como uma segunda mãe. Quando ela diz que ‘tudo já passou’, transmite a idéia de que ocorreu uma melhora e/ou uma cura e deixa implícito que isso seja decorrente do seu processo terapêutico.
Ao conversar com a terapeuta, ela marcou sua primeira entrevista. Ela relata: “Eu estava ansiosa para ir. Eu precisava ir falar. Eu tinha alguma coisa me incomodando e não sabia o que era.” Aqui ela demonstra que tinha uma grande expectativa em relação à terapia, considerando-a como um espaço onde poderia falar do que estava sentindo e de alguma forma descobrir o que a estava incomodando.
Em seguida, ela relata como foi sua primeira entrevista. “Ela fez na primeira sessão um simbolismo. Eu havia perdido papai alguns anos antes da mamãe. Ela pegou as almofadas e colocou então: a mamãe, o papai, a minha irmã, eu e meu irmão…Então, ela me fez diversas perguntas a respeito da minha relação com eles. E aí ela falou ‘vamos começar a trabalhar aqui. Você quer falar com o papai ou com a mamãe?’ Eu falei: ‘com o papai’. Aí você vai até a sua irmã passa por ela e vai falar com o papai. Volta dá um sorrisinho para ela e volta para cá. Se você quiser falar com a mamãe, vai até a sua irmã, vai até a mamãe e aí volta.’ Era sempre assim, eu agradava demais à minha irmã, dei móveis, montei uma casa pra ela, tudo que eu pudesse fazer para agradá-la, para que ela gostasse de mim, eu fazia e não tinha descoberto isso. ‘Então agora, Sarah, papai foi embora. Foi e agora? Ah, não tem importância, você vai até a sua irmã agrada e depois vai até a mamãe porque ficou a mamãe ainda, né’ Aí foi esquentando (…) Aí quando foi a vez da mamãe, que ela foi embora, morreu, eu fiquei cara a cara com a minha irmã. Eu dei um grito profundo de dor, que eu vomitei, eu vomitei muito, muito! Chorei muito! Hoje em dia ainda me lembro, me dá assim uma sensação de dor por aquilo ali, mas foi resolvido graças a Deus. E eu senti naquele momento muita raiva da minha irmã, muita.”
A maneira detalhada com que Sarah descreve sua primeira sessão, que ocorreu há aproximadamente nove anos, revela uma lembrança muito viva e forte do que aconteceu, o que leva a pensar que essa experiência foi muito importante para ela. Além disso, surge no meio da descrição, comentários sobre aquilo que foi percebendo, descobrindo durante a sessão, revelando de certa forma, os benefícios da mesma.
Sarah demonstra já na primeira sessão ter conseguido perceber de maneira mais clara a situação que estava vivendo. Ela se deu conta, por exemplo, de que sempre quis agradar sua irmã para, com isso, conseguir se aproximar de seus pais. Ela descobre também a raiva que sentia de sua irmã. Dessa maneira, a sensação de não conseguir olhar para ela passa a ter sentido. Quando Sarah disse que deu um grito profundo de dor, que vomitou e chorou muito, ela revela que a intensidade do que vivenciou foi muito grande, possibilitando que entrasse em contato profundo com suas emoções. A impressão que dá é que Sarah deu voz a uma dor e a uma raiva que há muito tempo havia se calado. Ela encerra esse trecho salientando que a situação relatada foi resolvida e demonstrando ter bastante convicção disso. De certa forma, ela deixa implícito que conseguiu isso através da psicoterapia que realizou.
A integração de elementos em relação aos quais Sarah se encontrava alienada, o contato profundo com suas emoções e o reconhecimento de que isso a ajudou a resolver a situação que estava vivendo constituem indícios de que ocorreu uma catarse de integração, tal qual Moreno a descreveu.
Podemos identificar, na seqüência descrita por Sarah, as duas primeiras etapas de uma sessão de psicodrama: o aquecimento, em que ocorreu a montagem da cena e foram feitas perguntas às personagens, e a dramatização, cujo tema foi o relacionamento com sua irmã. Não aparece de maneira tão clara a terceira etapa de uma sessão de psicodrama, o sharing, que consiste em compartilhar o ocorrido com o terapeuta. Entretanto, se considerarmos que o efeito dessa sessão foi bastante intenso, podemos pensar que provavelmente tenha ocorrido alguma forma de compartilhar, mesmo que no nível não verbal ou até mesmo em sessões seguintes.
“Mas isto também me veio trazer de volta coisas do passado como que era claro que eu tinha que agradar minha irmã. Minha mãe e meu pai tinham preferência por ela, no sentido que ela era muito parecida com eles. Depois eu fui compreendendo isto e é por isto que eu tenho esta explicação agora, mas naquela época eu não tinha esta explicação”
Aqui, Sarah nos faz pensar que sua primeira sessão de terapia, além de ter lhe trazido os benefícios já citados, lhe suscitou uma série de conteúdos do passado, abrindo um grande leque de questões a serem trabalhadas.
Podemos relacionar isso com um dos tipos de catarse de integração descritos por Almeida (1982), a catarse revolutiva, que se constitui num marco do processo terapêutico, em que o indivíduo desperta de maneira intensa para uma nova temática a ser explorada. As diversas ramificações dessa temática precisarão de uma atenção mais detalhada em outras sessões, mas o cliente já estará mobilizado para isso.
“Depois eu descobri que era isso, o meu desencontro de amor com minha irmã e com os meus pais”
Sarah comenta que se incomodava e brigava muito com algumas pessoas do grupo. Com o tempo, foi percebendo que esse incômodo ocorria porque a vivência dessas pessoas a remetia a um ponto de sua própria história. Eram pessoas que estavam se separando, sendo que uma delas tinha um amante e a outra dizia que queria viver a vida dela. Ela diz: “Eu tinha ódio de todos os amantes. Para mim era tudo um bando de filho da puta.” O ex-marido de Sarah também tinha arrumado uma amante, disse-lhe que não a amava mais e a partir disso resolveram se separar.
Podemos perceber que havia elementos transferenciais que dificultavam a relação de Sarah com determinados membros do grupo. Gradualmente, a transferência foi sendo dissolvida de modo que Sarah pôde compreender melhor seus companheiros de grupo. Dessa forma, tornou-se possível aumentar o grau de tele presente nessas relações.
Sarah fala a respeito de uma sessão em que um dos membros do grupo havia perdido a mãe e em que todos acolheram o rapaz com muito carinho. Na semana seguinte, ela diz que chegou muito mal na sessão e que não tinha vontade de conversar. “Aí, a Mara falou: Sarinha, deita aqui. Ela falou o que estava acontecendo. ’Você está tão mal, está pesada’. Eu falei: ‘Eu sei lá, eu estou com vontade de chorar.’ Eu me deitei no chão, no tapete. Tinha oito pessoas na sala. (…) eu chorei pelo corpo todo, eu não chorei só com os olhos. Eu fiquei totalmente imunda. Eu fiz xixi, eu chorei com os olhos, eu transpirei, eu me encolhi. A Mara diz que eu fiquei naquela posição uterina… E depois disto, deste choro, as coisas foram…sabe, eu fui me encontrando. Depois que eu tive esta crise, este choro, esta dor tão grande, eu pude parar para ver as outras pessoas. Já comecei a participar mais dos problemas dos meus colegas de grupo”.
Sarah já chega nessa sessão bastante mobilizada. Considerando a descrição que faz da sessão anterior podemos pensar que ela tenha se identificado com o tema protagônico da mesma (perder a mãe) de maneira tão intensa que na semana seguinte ainda se encontrava bastante mobilizada.
O protagonista, segundo Moreno, é aquele que traz um drama que não é só dele mas também do grupo. Ele é o primeiro combatente, o primeiro que agoniza e que com isso representa não só a sua própria dor, mas a dor do grupo. O protagonista da sessão anterior cumpriu essa função e despertou em Sarah o “seu próprio” drama, que também não é só seu mas do grupo.
Sarah demonstra que essa sessão foi muito importante para ela. O modo como descreve as reações que teve, nos faz pensar que houve uma mobilização tão intensa de seus sentimentos, que tornou-se difícil se expressar através da fala, sendo necessário utilizar outras formas de expressão mais viscerais. Essa sessão parece ter sido um marco no seu processo terapêutico, tanto que ela utiliza duas vezes a palavra ‘depois’, como que salientando a diferença existente entre o seu estado antes e depois dessa sessão. Quando ela diz “eu fui me encontrando”, transmite a idéia de que antes ela estava muito afastada de si própria, de seus sentimentos, de sua história e que agora conseguiu reintegrar tudo isso. Além disso, ela demonstra que, a partir do momento que conseguiu encontrar-se, tornou-se possível também encontrar as outras pessoas.
Provavelmente, nessa sessão, Sarah conseguiu elaborar vivências de seu passado, conseguindo libertar-se de amarras que dificultavam seu contato com os outros. Em outras palavras, elementos transferenciais que obstruíam sua relação com o outro se dissiparam, favorecendo o encontro. Podemos dizer então que um dos objetivos do psicodrama, que é eliminar os fenômenos transferenciais e favorecer a tele, foi atingido.
Quando a terapeuta disse para Sarah que ela estava mal, pesada, ela utilizou o princípio do duplo, em que se expressa aquilo que a pessoa está sentindo, mas não consegue expressar.
Sarah continua dizendo: “Eu acho que eu botei para fora todos os meus preconceitos. Eu chorei naquele dia a minha morte, mas eu renasci. Eu sinto isto porque foi muito profundo…Eu acho que naquele dia eu morri, morri e renasci com aquelas lágrimas todas, aquele xixi, tudo. Depois disso, eu fiquei bem mesmo. Comecei vendo as pessoas com outros olhos. Resolvi situações que eu não resolvia. Passei a compreender a dor alheia. Passei a compreender o meu filho, a rebeldia de filho. Passei a respeitar opiniões, modo de vida de outras pessoas. Eu tive alta uns oito meses depois disto”.
Sarah novamente demonstra que viveu de maneira muito intensa essa sessão. Além disso, aqui ela aponta de maneira mais clara os benefícios que obteve: perceber as pessoas de maneira diferente, conseguir solucionar situações que antes não conseguia, conviver melhor com as diferenças, compreender o sofrimento dos outros. É interessante notar que quase todos os apectos referem-se à maneira de se relacionar com as outras pessoas. Quando ela diz que depois disso ficou ‘bem mesmo”, ela transmite a idéia de que a mudança que teve foi muito duradoura e que essa sessão foi bastante eficaz.
Apesar de Sarah não ter descrito quais foram os aspectos que foram clarificados e integrados nessa vivência, seu depoimento demonstra um contato tão profundo com suas emoções e aponta de maneira tão nítida as transformações ocorridas que sugerem fortemente a ocorrência uma catarse de integração. Provavelmente, a forma como Sarah relata o ocorrido está relacionada com a maneira como vivenciou a sessão, que foi muito mais emocional, visceral. Desse modo, ela acabou deixando de relatar de maneira mais clara qual foi a temática trabalhada.
Moreno diz que a catarse corporal se dá através de uma limpeza ou purificação das diversas partes do corpo, como o aparelho digestivo, urinário ou genital (1993, p. 65). Tanto nessa sessão como na primeira sessão de terapia de Sarah, podemos perceber claramente a manifestação do aspecto corporal da catarse.
Quando perguntei a respeito das atitudes da terapeuta que foram marcantes para ela, ela disse: “Eu achava a Mara muito amorosa… A Mara eu amava muito. A atitude dela era sempre de carinho comigo. Eu achava ela firme, uma pessoa firme… Eu gostava muito dela porque eu via interesse em ajudar eu a resolver. O que mais marcou mesmo foi o interesse que ela tinha em me ver bem… Ela me passava muita confiança, muita credibilidade. Eu acho que ela batalhou muito comigo. Na verdade eu vou lhe dizer, eu sei que eu tenho um percentual na minha cura, mas a Mara foi a profissional, a terapeuta que me ajudou, porque não fosse ela com as técnicas dela eu não teria descoberto nada disso. Ela trouxe como profissional as técnicas, ela conseguiu trazer. Tanto que eu saía da terapia feliz quando eu sentia que a gente resolvia alguma coisa, quando a gente chegava num ponto de encontro, com as coisas que eu estava ali para sentir, aprender e chegava ali”
Sarah demonstra que a atitude carinhosa e firme da terapeuta foi muito relevante para ela. Ter se sentido como uma pessoa importante e querida pela terapeuta a ajudou a se comprometer com o processo terapêutico. Chama a atenção que a preocupação que ela percebia na terapeuta em ‘vê-la bem’ e em ajudá-la a ‘resolver’ mobilizou ainda mais a vontade de solucionar a situação que estava vivendo. Sarah deixa transparecer que, embora sinta que também contribuiu para a sua cura, ela atribui um papel fundamental à sua terapeuta, e as suas respectivas técnicas, sem a qual não seria possível atingir a cura.
Podemos perceber que Sarah ressalta tanto os aspectos humanos de sua terapeuta (o carinho, o interesse) como os aspectos profissionais (as técnicas). Embora esses dois aspectos costumem se misturar na prática, Sarah conseguiu identificar de maneira muito clara a presença dos dois. Isso me faz pensar que esses dois elementos estiveram bastante presentes no seu processo terapêutico.
As técnicas psicodramáticas constituem um instrumento básico que caracteriza o psicodrama. O modo de relação terapeuta-cliente, em que o terapeuta pode se mostrar como uma pessoa humana para seu cliente, também é característico do psicodrama. Assim sendo, podemos dizer que estiveram presentes nesse processo psicoterápico dois elementos marcantes do psicodrama.
Apesar desses dois aspectos (o humano e o profissional) serem condizentes com o psicodrama, é comum que os dois sejam vistos como contrastantes ou contraditórios e que os terapeutas tenham dificuldades de integrar de maneira equilibrada os dois. No relato de Sarah, percebemos que essa integração ocorreu.
Quando ela diz que amava muito a terapeuta, nos faz pensar que havia bastante proximidade entre as duas, de tal forma que havia espaço para o afeto.
Quando perguntei à Sarah o que ela sentia nas dramatizações, ela respondeu: “Eu não gostava porque eu achava falsa. Eu não conseguia vestir aquele tipo de coisa. Eu só conseguia transmitir aquilo que eu sentia mesmo. Eu não conseguia.”
É interessante notar que aqui ela fala do dramático como sendo algo de que ela não gostava, que era artificial, que não era verdadeiro. Entretanto, durante toda a entrevista, ela demonstra ter se envolvido bastante com o espaço dramático, trabalhando situações de sua vida e fazendo descobertas sobre si mesma. Por quê, então, ela fala da dramatização como sendo algo falso nesse trecho? Penso que aqui ela pode ter se lembrado de outras situações em que não tenha realmente conseguido se envolver com o drama que estava sendo representado e, em decorrência, tenha sentido que aquilo era falso.
Com relação à técnica do espelho, Sarah diz: “Eu falava e ela repetia. Era engraçado, eu ria muito. Eu achava muita graça do que ela achava que eu era. Eu achava muita graça de me ver ali… Tinha coisa que eu não gostava. Aí eu dizia que era verdade o que ela estava dizendo”.
Aqui parece que Sarah não gostava do espelho quando este lhe apontava uma ‘verdade’. Enquanto esse espelho apenas explícitava o seu jeito de ser, ela achava graça. Entretanto, quando ele delatava uma faceta desconhecida de si mesma, ela se incomodava.
Para finalizar, perguntei à Sarah como tinha sido para ela ir direto para o grupo sem fazer um tempo de individual. “Eu até achava que eu era exibicionista, adorei. Eu adorava falar no grupo, participar. Tinha dia que até me chamavam de estrela… Eu não tinha vergonha de nada. Aliás, eu sempre fui assim. Me parece que eu queria chocar as pessoas. Eu dizia, vocês me dão licença que eu vou colocar para fora o meu lado negro, a minha pomba-gira. Mas, isto daí depois que eu passei por todos aqueles choros, eu parei. Eu mudei até na minha vida pessoal isto. Comecei a controlar minha língua, a não ser tão aberta. Apesar de que muita gente reclama, diz que gostava mais de mim daquele jeito. Mas acho que aquilo ali me incomodou porque eu levei isto para terapia”.
Sarah demonstra que se expunha bastante no grupo, mas que, depois de “todos aqueles choros”, ela se transformou, passando a se comportar de maneira mais recatada, tanto no grupo quanto em sua vida pessoal. Ela parece ter integrado alguma coisa de sua história que a fazia sentir tanta necessidade de ser o centro das atenções. A partir disso, deixou de ter necessidade de ser a ‘estrela do grupo’ ou de chocar as pessoas.
À primeira vista, quando Sarah diz que “passou a controlar a língua, a não ser tão aberta” pode-se ter a impressão de que Sarah se tornou menos espontânea. Entretanto, penso que tenha ocorrido justamente o contrário, isto é, ela se libertou de um modo estereotipado de se relacionar, em que tinha sempre que se exibir para conquistar atenção, abrindo espaço para descobrir novas formas de se comportar e se relacionar.
A partir desse trecho de seu depoimento podemos entender melhor porque Sarah disse que a dramatização era falsa, artificial. Provavelmente, muitas vezes, ela ocupava o espaço dramático apenas para se exibir, fazer um show, sem conseguir se comprometer realmente com o que estava fazendo. Nesse caso, a dramatização tornava-se falsa. Entretanto, outras vezes, como podemos perceber em seu depoimento, ela se envolvia profundamente com o que estava sendo representado e conseguia tirar proveito disso. Nessas situações, as dramatizações eram verdadeiras.
5.3.1. Impressões gerais:

Sarah buscou a terapia em um momento de crise intensa, que havia sido desencadeada pela morte de sua mãe. Ela se queixava de não conseguir ouvir a voz de sua irmã, de quem sempre havia gostado muito, e de se sentir muito mal e perdida. Durante a terapia, Sarah demonstra compreender melhor o que sentia por sua irmã e, além disso, revela ter transformado suas relações interpessoais e ter redescoberto a alegria de viver. Tudo isso leva a pensar que essa psicoterapia tenha sido bastante eficaz.
Sarah demonstra ter se beneficiado bastante com a psicoterapia de grupo. Diversas vezes, os temas trazidos pelos membros do grupo a mobilizaram, possibilitando que trabalhasse determinadas temáticas e conflitos. Dessa forma, a idéia defendida por Moreno de que cada elemento do grupo pode funcionar como agente terapêutico para os demais foi referendada nessa entrevista.
Foi possível identificar em dois momentos de seu depoimento a catarse de integração. Na primeira sessão (individual) em que ela percebeu como se dava a relação com seus pais e com sua irmã e se sentiu mobilizada a trabalhar uma série de questões do seu passado. E bem depois, na psicoterapia de grupo quando, mobilizada pela temática trabalhada na sessão anterior, ela entrou em contato tão profundo com seus sentimentos, que passou, a partir daí, a olhar o mundo e a se relacionar de forma muito diferente da que estava acostumada.
A primeira catarse de integração possibilitou que Sarah transformasse o modo como se via dentro da rede de relações familiares da qual fazia parte, isto é, ela pode descobrir o ‘lugar’, o papel, que ocupava dentro de sua família. A partir desse momento, já não poderia olhar sua irmã do mesmo modo que antes. A sua dificuldade de ouvir a voz da irmã agora reencontrou seu sentido original. Entretanto, muitos aspectos dessa temática foram apenas levantados e precisariam ser focalizados em outras sessões.
A catarse de integração posterior constitui um marco do processo psicoterápico de Sarah, pois a partir daí Sarah sofre grandes transformações. Ela passa, por exemplo, a estar mais atenta ao que se passa com o outro, tornando-se capaz de compreender e compartilhar os problemas alheios, o que antes lhe parecia muito difícil. Além disso, Sarah pôde reencontrar a si mesma, na medida em que resgatou seu sofrimento, sua tristeza e, com isso, sua história. Isso provavelmente possibilitou que elaborasse situações de seu passado que deviam intervir em seus relacionamentos, provocando transferências. Dessa forma, o relacionamento com o outro pôde fluir de maneira mais télica, sem tantas interferências.
Outra importante transformação ocorrida diz respeito ao fato de que Sarah deixou de ter necessidade de se exibir, tanto no grupo terapêutico como nos outros relacionamentos. Ela pode se libertar de um modo estereotipado de se comportar e descobrir novas formas de se relacionar que lhe fossem mais satisfatórias. Em outras palavras, ela pode se libertar dessa conserva cultural, favorecendo o surgimento de respostas mais espontâneas.
Segundo Moreno, a catarse de integração constitui o valor terapêutico do psicodrama (1974, p. 108). No caso de Sarah podemos perceber que a catarse de integração teve um grande efeito terapêutico, já que possibilitou que ela realizasse todas as transformações citadas e, com isso, conseguisse se sentir melhor ou ainda, nos seus próprios termos ficasse ‘bem mesmo’.
Foi possível em vários trechos do depoimento de Sarah identificar de maneira precisa, elementos que são característicos de uma sessão psicodramática. Entre eles, podemos citar: a técnica do espelho e duas etapas de uma sessão de psicodrama: o aquecimento e a dramatização. Além disso, em vários trechos, ela refere-se de maneira geral às dramatizações e às técnicas utilizadas pela terapeuta. Tudo isso nos leva a pensar que o método psicodramático foi bastante utilizado nessa psicoterapia.
Sarah identifica e valoriza tanto os aspectos humanos como os aspectos profissionais de sua terapeuta. Ela demonstra perceber que sua terapeuta apresenta um conhecimento específico e determinadas técnicas que podem lhe auxiliar. Além disso, ela reconhece o afeto e o interesse que a terapeuta tem por ela e também é capaz de identificar algumas características pessoais da mesma, como ser firme e amorosa.
Moreno ressaltou que se o terapeuta utiliza só o seu lado profissional, sem empregar seu lado individual e irracional, ele consegue atingir muito menos do que poderia no tratamento. Ele chega inclusive a distinguir três tipos de habilidade: habilidade sem amor, amor sem habilidade e habilidade com amor, que seria o mais desejável (1983, p. 54). Podemos observar que tanto a habilidade quanto o amor estiveram bastante presentes nessa psicoterapia, atingindo o ideal proposto por Moreno.
CAPÍTULO VI DISCUSSÃO

 

6.1 Dos objetivos psicodramáticos
Com relação ao cumprimento dos objetivos psicodramáticos, pude perceber que cada depoimento retrata uma situação distinta. Sarah nos mostra como a psicoterapia psicodramática que realizou cumpriu plenamente seus objetivos. Marília demonstra estar caminhando em direção a esses objetivos, atingindo-os parcialmente. Mônica apresenta uma situação mais complexa por ter realizado várias psicoterapias. Ela demonstra ter atingido parcialmente os objetivos psicodramáticos nas psicoterapias individual e grupal que realizou com a primeira psicoterapeuta, mas não demonstra tê-los atingido no trabalho realizado com sua segunda psicodramatista.

No caso de Sarah, podemos perceber que o resgate da espontaneidade ocorreu por ela ter conseguido se libertar de certas conservas culturais que há muito tempo tinham se cristalizado como, por exemplo, a de ter que ser a estrela do grupo. O fato de conseguir resolver situações que antes não conseguia também indica um maior grau de espontaneidade, já que se abriu para encontrar novos caminhos, novas respostas para situações antigas.

Marília, por sua vez, revela que está buscando resgatar sua espontaneidade na medida em que tem procurado não repetir as mesmas atitudes, tentando encontrar novas soluções. Ela demonstra perceber que precisa mudar certos padrões de comportamento que já se cristalizaram sob a forma de conservas culturais, mas que estão se mostrando insatisfatórios. A sua atitude irônica e agressiva quando algo lhe desagrada constitui um exemplo do tipo de comportamento que Marília tem procurado transformar com o processo terapêutico.

Marília, ao comentar a respeito da comemoração que fez quando descobriu que não estava com aids, nos possibilitou conhecer uma situação, no contexto terapêutico, em que ocorreu a manifestação de sua espontaneidade. Pudemos perceber que a terapeuta também reagiu à situação de maneira espontânea, demonstrando dessa forma que é capaz de acolher a favorecer a espontaneidade de sua cliente.

Em sua primeira psicoterapia psicodramática individual, realizada com Luiza, Mônica conseguiu resgatar a espontaneidade para lidar com diversas situações. Quando iniciou a psicoterapia, ela apresentava um intenso bloqueio da espontaneidade, que a impedia de lidar com situações do dia-a-dia como estudar, tomar banho e sair de casa. Com o decorrer do processo psicoterápico, ela conseguiu enfrentar essas situações, respondendo de forma mais satisfatória. Um exemplo disso foi a sua volta à universidade, em que foi capaz de escolher um curso de seu interesse e enfrentar as dificuldades encontradas.

No que diz respeito ao psicodrama grupal realizado com a mesma terapeuta, Mônica demonstra ter conseguido questionar algumas conservas culturais como, por exemplo, a sua visão a respeito dos homossexuais. A partir disso, tornou-se possível relacionar-se de modo mais espontâneo com os mesmos. O seu depoimento aponta para um resgate da espontaneidade pontual e não abrangente para as diversas situações da vida.

Nas duas psicoterapias psicodramáticas (individual e grupal) realizadas posteriormente, não há indícios de que Mônica tenha avançado no que diz respeito a este objetivo. Pelo contrário, suas colocações sugerem que esta terapia não lhe trouxe benefícios ou que esses foram muito insignificantes.

Com relação ao desenvolvimento de relações télicas, pude perceber que a psicoterapia de Sarah atingiu plenamente esse objetivo. Ela conseguiu passar a entender e compreender sentimentos e opiniões alheias, como por exemplo a rebeldia de seu filho e os problemas de seus colegas de grupo. Isso só é possível quando conseguimos nos colocar no lugar do outro, isto é, quando a tele está operando. Os elementos transferenciais que dificultavam sua relação, seu encontro com o outro, puderam reencontrar seu sentido original e com isso deixaram de interferir e prejudicar seus relacionamentos.

O relato de Marília aponta para o fato de que sua relação com a terapeuta foi se tornando mais télica e menos transferencial. Entretanto, não encontramos em seu depoimento indícios de que esse tipo de transformação também tenha ocorrido nos demais relacionamentos. É preciso considerar que a própria relação terapêutica costuma ser a matriz para as mais diversas transformações que se sucedem em um processo psicoterápico. Nesse caso, é possível pensar que os avanços na relação com sua terapeuta ainda podem se refletir nos outros relacionamentos de Marília.

Também não podemos nos esquecer que o processo psicoterápico de Marília ainda estava acontecendo na época de seu depoimento. A forma como Marília se coloca, salientando sempre o fato de que tem buscado mudar suas atitudes, também corrobora o fato de que ela está em processo de mudança. Ela não se refere, como Sarah, a transformações consumadas, mas sim a tentativas e perspectivas de mudança.

Tudo isso faz pensar que Marília ainda não conseguiu uma transformação significativa em suas relações de modo a alcançar um maior grau de tele. Ela demonstra estar a caminho disso por estar, inclusive, transformando a relação com sua terapeuta. Assim sendo, o objetivo psicodramático de desenvolver relações télicas foi alcançado de modo parcial nessa psicoterapia.

Mônica, em sua primeira psicoterapia grupal, não demonstra ter conseguido desenvolver relações télicas com os demais membros do grupo. Pelo contrário, suas relações no grupo se deram de maneira bastante transferencial. O grande incômodo que o grupo lhe causou, quando iniciou a psicoterapia de grupo, manteve-se durante todo o processo e ainda hoje se revela forte em seu depoimento. Isso indica que ela não conseguiu perceber o quanto esse incômodo estava relacionado com sua própria história de vida e com uma temática difícil para ela: a sexualidade. Dessa forma, suas relações mantiveram-se bastante obstruídas e prejudicadas por elementos transferenciais.

Com relação a psicoterapia individual realizada com a mesma terapeuta, encontrei no depoimento de Mônica apenas uma passagem em que fica evidente que elementos transferenciais foram eliminados favorecendo a tele. Trata-se do momento em que ela consegue perceber melhor o grau de suas dificuldades no contexto acadêmico.

Considerando que a tele é um conceito que está ligado à sociabilidade, penso que é interessante levar em conta a situação em que se encontrava Mônica ao iniciar a psicoterapia: a de alguém que estava isolado socialmente, convivendo com poucas pessoas e que tinha abandonado atividades (estudar, por exemplo) que lhe possibilitavam uma inserção social. A partir da psicoterapia, ela consegue abrir-se novamente para o mundo social. Esse é um grande beneficio propiciado por essa psicoterapia. Talvez por isso, Mônica se refira muito mais ao fato de ter reconquistado a capacidade de enfrentar o mundo do que a uma mudança na qualidade de suas relações. Entretanto, para que tenha conseguido superar, pelo menos em parte, os obstáculos e receios que a impediam de se integrar no mundo social mais amplo, devem ter sido eliminados, ou pelo menos minimizados, os elementos transferenciais que dificultavam essa aproximação.

É importante considerar que, durante um período, Mônica realizou concomitantemente a psicoterapia de grupo e a individual, sendo difícil, em alguns momentos, separar o que foi efeito de uma e de outra, até porque esses dois processos funcionam conjuntamente, um auxiliando o outro. Para lidar com essa dificuldade, procurei estar atenta às diferenciações feitas pela cliente a respeito das psicoterapias. Entretanto, em alguns trechos, ela se refere diretamente à terapeuta que realizou as duas psicoterapias, dificultando a diferenciação. Nesses casos, considerei que seus comentários se aplicavam a todo processo psicoterápico realizado com a terapeuta citada.

No relato de Mônica sobre sua segunda psicoterapia de grupo não aparecem indícios de que tenham ocorrido fenômenos transferenciais com os membros do grupo. Também não há referências a transformações que tenham ocorrido nessas relações, nem a situações em que o que foi trabalhado no grupo tenha propiciado mudanças nas demais relações de Mônica. Ela refere-se ao crescimento das pessoas do grupo, mas não faz nenhuma referência ao seu próprio crescimento.

Tudo isso me leva a pensar que não ocorreram mudanças significativas nas relações de Mônica, que demonstrem que esta alcançou um maior grau de tele a partir desse processo psicoterápico.

Com relação a psicoterapia individual realizada com essa terapeuta, Mônica não aponta transformações que tenham ocorrido na qualidade de suas relações interpessoais. Ela reconhece apenas que essa psicoterapia serviu para esclarecer seus conflitos, não transformando seu modo de ser. Assim sendo, o objetivo de transformar relações transferenciais em relações télicas parece não ter sido atingido nessa psicoterapia ou então isso se deu de maneira tão limitada que nem chega a ser reconhecido pela cliente.

No que diz respeito a catarse de integração, podemos perceber que Sarah atingiu plenamente esse objetivo. Ela descreveu duas situações em que ocorreram a catarse de integração, sendo que a segunda foi decisiva em seu processo de transformação, possibilitando que conseguisse melhorar de maneira significativa suas relações interpessoais e agir com maior espontaneidade.

Quero apontar para a diferença entre as duas catarses ocorridas. A primeira teve como função propiciar um primeiro desvelamento da temática que afligia Sarah, levantando uma série de questões que necessitariam de um aprofundamento maior. É o que Almeida (1982) denomina catarse revolutiva. A catarse posterior possibilitou que Sarah conseguisse integrar os diversos elementos de seu drama, possibilitando uma efetiva transformação no seu modo de ser. É a catarse resolutiva.

Embora não seja possível identificar a ocorrência de uma catarse de integração a partir do depoimento de Marília, podemos perceber alguns elementos que assinalam para a possibilidade de ela ter acontecido. Ela demonstra que a dramatização a mobilizava bastante, fazendo com que refletisse sobre as situações que estava vivendo e procurasse transformá-las. Todos esses elementos fazem parte de uma catarse de integração. Entretanto, como ela ainda não atingiu uma transformação efetiva do seu modo de ser, podemos pensar que tenham ocorrido catarses parciais, mas que o processo de integrar as diversas partes do drama ainda não tenha se completado de modo a produzir uma catarse total. Isso é coerente com o fato de Marília demonstrar o tempo todo que está em processo de mudança.

Não foi possível identificar em nenhuma das psicoterapias realizadas por Mônica a ocorrência nítida de uma catarse de integração.

Apesar de não ser possível identificar uma circunstância em que tenha ocorrido uma catarse de integração na primeira psicoterapia psicodramática, há elementos no depoimento de Mônica que impedem que se descarte a possibilidade de sua ocorrência. Ela aponta para transformações em suas atitudes perante à vida como, por exemplo, uma maior capacidade de enfrentar obstáculos e uma retomada de suas atividades sociais. Isso pode ter sido propiciado por catarse (s) de integração.

Ela atribui uma grande importância a essa psicoterapia, colocando-a em primeiro lugar, em sua classificação, o que faz pensar que o seu efeito terapêutico deve ter sido muito significativo. Ela diz que essa psicoterapia lhe propiciou uma reconstrução como pessoa. Essa expressão é muito pertinente para descrever o que provoca uma catarse de integração, já que nessa conseguimos nos apropriar de nossa própria história e, com isso, reformular seu rumo, transformando o nosso ser. Além disso, ela demonstra ter trabalhado questões importantes para ela como por exemplo: aprender a lidar com uma mãe dominadora e um pai desligado. O trabalho com essas temáticas também pode ter culminado em catarse(s) de integração.

Já na psicoterapia de grupo, realizada com a mesma psicoterapeuta, Mônica não reconhece temáticas que tenham sido abordadas que fossem importantes para ela e das quais pudesse tirar proveito. No que diz respeito a transformações propiciadas por essa psicoterapia, ela reconhece apenas que se tornou mais flexível, diminuindo, por exemplo, o preconceito que tinha com os homossexuais. Ela não demonstra ter conseguido se apropriar mais de seu próprio drama, nem a partir de sua própria experiência, nem a partir da apresentação e representação dos dramas de outras pessoas. Tudo isso me leva a pensar que não houve catarse de integração nessa psicoterapia.

O fato de Mônica ter sido colocada em um grupo que era pouco apropriado para ela também pode ter restringido de maneira significativa a possibilidade de haver catarse (s) de integração.

Considerando que Mônica refuta a possibilidade de que a psicoterapia individual e grupal realizadas com a segunda terapeuta (Miriam) tenha lhe proporcionado alguma transformação em seu modo de ser, torna-se inconcebível pensar na ocorrência de uma catarse de integração, pois esta mesmo que parcial sempre produz alguma mudança. Além disso, não há indícios de que tenha ocorrido um desenvolvimento de relações télicas ou um aumento da capacidade espontânea, que são conseqüências esperadas de uma catarse de integração.

6.2 DO MÉTODO PSICODRAMÁTICO

 

Sarah faz muitas referências às dramatizações realizadas em sua psicoterapia, deixando transparecer que o método dramático foi bastante utilizado. A descrição detalhada que faz de duas sessões nos permite perceber a presença de elementos característicos de uma sessão de psicodrama, tais como: as etapas de uma sessão, o protagonista e a catarse de integração.

A presença da catarse de integração no final das duas sessões descritas indica que o método dramático foi eficiente no que diz respeito ao que visa o psicodrama.

O caso de Sarah aponta para a eficiência tanto do método dramático quanto da psicoterapia de grupo. É como se ele reforçasse ou reavivasse a proposta psicodramática moreniana, que, como vimos, tem se mostrado um pouco desgastada e esquecida.

Mônica aponta para o fato de que raramente dramatizou nas psicoterapias psicodramáticas individuais. Isso indica que o método dramático foi bastante negligenciado nessas psicoterapias.

Nas psicoterapias grupais, ela reconhece ter dramatizado um pouco mais, mas sempre representando personagens relacionadas a histórias de outros membros do grupo. Dessa forma, ela não pôde usufruir dos benefícios da representação de cenas suas, em que atuasse como protagonista.

Por outro lado, sabemos que na psicoterapia psicodramática não é preciso ser protagonista para se beneficiar da representação dramática, já que o protagonista mobiliza o grupo como um todo, por trazer para o palco um drama particular que, aos poucos, se revela coletivo. Entretanto, alguns elementos no relato de Mônica nos faz questionar se o método dramático cumpriu seu papel dessa forma. Ela demonstra que representar personagens de outras histórias era mais fácil porque dessa maneira conseguia se envolver bem menos. Isso indica que os dramas alheios não a mobilizavam.

Na primeira psicoterapia grupal, fica claro que ela não se identificou com as temáticas trazidas pelos outros membros do grupo, tornando-se muito difícil, para ela, aproveitar terapeuticamente aquilo que era trabalhado com eles. Na segunda psicoterapia grupal, ela até se identifica com os membros do grupo, mas não relata nenhuma situação em que os dramas trazidos por eles a tenham mobilizado ou que tenham feito com que refletisse sobre sua vivência. Além disso, ela se queixa da monotonia do grupo, dando a impressão que esse a mobilizava pouco. Tudo isso me leva a pensar que ela tenha se beneficiado pouco com as dramatizações realizadas.

Durante o depoimento de Mônica, ela quase não se referiu ao método dramático, sendo necessário que eu perguntasse a respeito do assunto. Isso também reforça a idéia de que o método dramático teve pouca importância para ela.

Tudo isso indica que o método dramático foi pouco utilizado pelas duas terapeutas de Mônica e, quando foi usado, foi pouco significativo para a paciente. Percebemos assim que houve uma descaracterização do psicodrama nessas psicoterapias, já que o método dramático que o caracteriza foi negligenciado.

Podemos perceber que o método dramático esteve bastante presente na psicoterapia realizada por Marília. Embora dizendo ter relutado várias vezes em participar das dramatizações, a paciente reconhece que conseguiu enfrentar seus receios e dramatizar. Isso indica que a terapeuta não desistiu de utilizar seu método frente às resistências apresentadas pela cliente, demonstrando assim sua convicção em relação a ele.

Marília atribui uma grande importância à dramatização em seu processo psicoterápico, demonstrando que ela lhe propiciou benefícios que o trabalho verbal apenas não lhe possibilitaria. A dramatização a mobilizava intensamente propiciando que refletisse sobre as situações representadas e procurasse transformá-las.
6.3. DAS TÉCNICAS PSICODRAMÁTICAS
Mônica não faz menção, em sua entrevista, à utilização de técnicas psicodramáticas, nem de maneira geral, nem citando o uso de uma técnica em específico. Isso é coerente com o fato do método dramático ter sido pouco utilizado, já que as técnicas são utilizadas principalmente no contexto dramático.

Mesmo se considerarmos que as técnicas podem ter sido utilizadas algumas vezes e não terem sido mencionadas por Mônica, seu uso provavelmente não foi assíduo, nem produziu efeitos significativos para a paciente, visto que ela não se lembrou de falar das mesmas durante a entrevista.

Marília se refere várias vezes à técnica do espelho, apontando sua grande importância no tratamento. Essa técnica possibilitou que conseguisse perceber melhor suas atitudes, propiciando um melhor reconhecimento do Eu, o que corresponde ao objetivo da mesma.

Ela se refere de maneira mais específica a técnica do espelho, revelando que essa técnica em certos momentos lhe incomodava por revelar uma verdade sobre si. Esse é justamente o objetivo dessa técnica: favorecer uma melhor percepção a respeito de si próprio.

 

6.4 DA POSTURA HUMANA DO PSICOTERAPEUTA
Em primeiro lugar, considero importante explicar o que estou chamando de “postura humana”.

Ao explicar o conceito de tele, Moreno fala da relação entre terapeuta e cliente e mostra que o cliente também é capaz de avaliar quem é o seu psicoterapeuta. (1983, p.20) Ele valoriza esse fato e defende que o terapeuta, em vez de tentar se colocar atrás de uma máscara, deve expressar aquilo que sente na relação, dando oportunidade para que ocorra o ‘encontro’ (1983, p. 23). Em outras palavras, o terapeuta deverá ter uma postura que favoreça o surgimento da tele e não estimular a presença de fenômenos transferenciais.

Com o intuito de esclarecer melhor ainda o que estou chamando de “postura humana”, quero recorrer ao próprio Moreno:

“(…) mas com o psicoterapeuta, é extremamente difícil, se não impossível, separar sua habilidade de sua personalidade. Aqui, pelo menos no ato do trabalho, habilidade e personalidade são inseparáveis (…) a personalidade do terapeuta é sua habilidade.” (Moreno, 1983, p. 54)

Aqui, Moreno aponta para a importância da personalidade do terapeuta, que ao invés de ser vista como uma ameaça que pode atrapalhar ou interferir no trabalho, é encarada como um instrumento muito útil na psicoterapia. Além disso, ele salienta que a pessoa do terapeuta e sua atuação como profissional são inseparáveis.

Em outro trecho, Moreno ainda salienta os prejuízos advindos de uma atitude rígida do psicoterapeuta, em que este não permite que o seu lado pessoal se manifeste.

“Se o médico só se manifesta em seu papel profissional, objetivo e distante, utilizando sua habilidade e sua experiência clínica (…), então talvez ele possa, pelo menos em muitos casos, ficar aquém de sua contribuição máxima. Se ele não permite ao seu lado individual, irracional que dê ao paciente aquilo que puder, além do que conhece e pode fazer com sua técnica profissional, isso seria uma desvantagem” (1983, p. 54).

Acredito que essa breve exposição tenha sido necessária para esclarecer o significado atribuído ao termo ‘postura humana’, que engloba colocar-se e expressar-se como ser humano e utilizar-se da própria personalidade como um instrumento de trabalho. Permitir que a própria personalidade ou a própria pessoa tenha o seu lugar no processo psicoterápico.

A ‘postura humana’ do psicoterapeuta esteve presente em todos os processos psicoterápicos descritos pelas entrevistadas.

Na psicoterapia de Sarah, essa postura se revela através de uma atitude carinhosa e dedicada da terapeuta, que contribuiu para que Sarah se sentisse mais motivada a resolver seus problemas. É interessante ressaltar que a própria Sarah reconhece em sua terapeuta tanto o aspecto humano e afetivo quanto o aspecto profissional, o que mostra que é possível conciliar os dois de maneira equilibrada.

Quanto à Mônica, a postura acolhedora de sua primeira terapeuta foi fundamental para que se comprometesse com o tratamento. Além disso, a atitude de se mostrar como uma pessoa que também tinha problemas possibilitou que Mônica se sentisse menos solitária em seu sofrimento e mais compreendida. Sua segunda terapeuta, por sua vez, ao revelar à cliente como se sentia atendendo-a, também assumiu uma postura humana.

A terapeuta de Marília ao demonstrar sua tristeza frente ao sofrimento dela também se colocou como pessoa. No ato de partilhar a alegria de Marília por descobrir que não estava com aids também podemos reconhecer o lado humano da terapeuta. Nessas situações, fica evidente que se fez presente não apenas o profissional com suas habilidades, mas também o ser humano.

Apresento a seguir um quadro comparativo dos elementos psicodramáticos analisados nesta pesquisa.
Considerações finais

Quando optei por ouvir o ponto de vista do cliente sobre seu processo psicoterápico, o fiz por considerar que este teria muito a contribuir com seu depoimento, por ter vivenciado diretamente esse processo. Dessa forma, foi possível pesquisar o processo psicoterápico psicodramático sob um ponto de vista que tem sido pouco pesquisado: o do paciente.

Entretanto, ao fazer essa opção e consequentemente esse recorte, deixo de fora um outro elemento que teria muito a acrescentar sobre esse mesmo processo psicoterápico: o terapeuta. Este, por ser o papel complementar do cliente, poderia nos revelar uma outra faceta da psicoterapia realizada.

A partir disso, podemos vislumbrar os limites de uma pesquisa, que não dá conta de abarcar todos os elementos de uma experiência, mas apenas um fragmento da mesma.

Por outro lado, penso nos inúmeros artigos, livros e pesquisas que li, em que havia apenas o parecer do terapeuta sobre o processo psicoterápico do cliente. Eu considerava isso como algo natural e percebia que meus colegas também assim o percebiam.

Isso leva a pensar que nós atribuímos um valor maior à fala do terapeuta a respeito de seu cliente do que à fala do cliente sobre o seu processo psicoterápico. Parece que estamos deparando com um viés ou um preconceito da comunidade dos psicoterapeutas e, em particular, dos psicodramatistas.

É possível que algumas pessoas aleguem que o terapeuta, por ter uma formação específica e por fazer terapia, tenha maior capacidade de avaliar a situação. Entretanto, não podemos negar que, apesar de todo esse preparo, o terapeuta é um ser humano e como tal tem uma história de vida, tem sentimentos e emoções, que também podem obstruir a percepção. Além disso, o terapeuta, por mais que seja capaz de inverter os papéis com o cliente, não terá condições de expressar a experiência própria, particular, de seu cliente a respeito da psicoterapia.

Existem ainda outros aspectos que devem ser considerados quando se pensa a respeito da fala do terapeuta sobre o processo psicoterápico de seu cliente. O psicodramatista seria, em tese, um sujeito interessado em validar o método psicodramático, já que optou por utilizá-lo em sua prática profissional, demonstrando assim uma adesão ao mesmo. Além disso, ele provavelmente tenderia a falar mais dos sucessos do que dos fracassos, pois dessa forma estaria validando a sua atuação como psicoterapeuta. O relato de fracassos, por sua vez, contribuiria para que o profissional se visse e fosse visto como ineficaz, o que iria contra os interesses do profissional e da categoria.

Isso se confirma quando leio casos clínicos. A maior parte deles refere-se a casos bem sucedidos. Poucos mostram o lado mais humano do terapeuta, apontando para os erros e dificuldades na atuação profissional e para situações em que o terapeuta não teve êxito. Aí cabe perguntar: será que quase sempre somos bem sucedidos ou temos dificuldade de falar dos nossos fracassos?

Por tudo isso, tenho convicção de que tanto uma pesquisa que considere somente o depoimento do cliente, assim como uma que enfoque apenas a opinião do terapeuta, terá que arcar com as limitações impostas por considerar apenas um aspecto da realidade estudada. Como já apontei, não vejo motivos para que a fala do terapeuta seja considerada mais isenta ou mais confiável do que a do paciente.

É importante considerar que outros elementos também deveriam ser incluídos na pesquisa para que pudéssemos abranger a totalidade da situação estudada. Por exemplo, seria interessante ouvir a opinião do supervisor, já que este também acompanhou o caso e pode contribuir para uma melhor compreensão de como se deu o processo psicoterápico e quais foram os resultados alcançados. Além disso, familiares e amigos do cliente poderiam ser ouvidos com a intenção de verificar se detectaram as mudanças descritas pelos sujeitos.

Entretanto, levando em conta a impossibilidade de abarcar todos esses elementos nesta pesquisa, em função do tempo disponível e também para não correr o risco de que ela se torne algo interminável, já que sempre haverá algo mais a ser considerado, fiz uma escolha quanto à abrangência deste estudo.

Acredito que devemos dar mais atenção ao que os clientes sentem e pensam sobre suas psicoterapias, já que são eles que usufruem esse processo. Podemos aprender muito com eles, já que conheceremos mais sobre os bastidores da psicoterapia, sobre como vivenciam esse processo e quais os benefícios obtidos a partir dele.

Durante a análise das entrevistas fui percebendo que, em algumas psicoterapias, os objetivos tinham sido mais atingidos do que em outras, não havendo uma uniformidade. Procurei estar atenta para tentar entender o que justificava essa diferença.

Aos poucos, fui constatando uma relação entre a presença do método dramático e a consecução dos objetivos psicodramáticos. Existia uma relação quase que proporcional entre esses dois elementos, de tal modo que onde o método se fez mais presente, como no caso de Sarah, os objetivos foram atingidos plenamente, enquanto que em quase todas as psicoterapias em que o método se mostrou mais ausente (três das quatro psicoterapias realizadas por Mônica), os objetivos quase não foram alcançados. Na psicoterapia realizada por Marília, o método dramático se fez presente mas não de maneira tão clara e tão acentuada como na psicoterapia de Sarah e os objetivos, embora estivessem presentes, não foram atingidos plenamente, mas parcialmente.

Esse dado aponta para a importância do método dramático, sem o qual se torna difícil atingir os objetivos clínicos do psicodrama. Isso vem salientar a importância de preservar o método dramático e de impedir, enquanto psicodramatistas, que ocorra uma descaracterização do mesmo, como se mostrou nas psicoterapias realizadas por Mônica.

Apenas na primeira psicoterapia psicodramática individual de Mônica é que, mesmo com a limitada utilização do método dramático, pudemos observar o alcance, ainda que parcial, dos objetivos psicodramáticos. Isso mostra que em algumas situações pode-se atingir parte desses objetivos, mesmo negligenciando-se o método dramático. Procurei então compreender que tipo de situação era essa e levantei uma hipótese que talvez possa explicar esse resultado.

O fato de que essa cliente se encontrava muito fragilizada, insegura e carente de atenção, ao buscar essa psicoterapia, fez com que a ‘postura humana’ e a própria relação com a terapeuta tivessem um lugar de destaque em seu tratamento. Pode-se dizer que a terapeuta ofereceu uma oportunidade para que sua cliente se sentisse amparada, acolhida, aceita. Possivelmente, a cliente pôde vivenciar uma relação bastante diferente da que aprendeu em sua matriz de identidade. Isso possibilitou que aumentasse sua auto-confiança e sua auto-estima, ficando mais fortalecida para enfrentar dificuldades. Em outras palavras, penso que tenha ocorrido uma rematrização, isto é, que essa cliente tenha descoberto um novo modo de se relacionar a partir da relação com a própria terapeuta e que provavelmente isso repercutiu em seus outros relacionamentos.

O avanço que teve, considerando o estado em que se encontrava, foi muito grande. Entretanto, é provável que ainda necessitasse trabalhar muitos aspectos de sua vida, como por exemplo a sexualidade, para que pudesse vivê-la com maior espontaneidade. O fato de ter buscado outras psicoterapias posteriormente demonstra que ainda sentia necessidade de ajuda.

Com base nisso tudo, penso que, em casos como o de Mônica, em que a pessoa se encontra muito fragilizada, a ‘postura humana’ do terapeuta e a própria relação que se estabelece têm um papel fundamental no processo psicoterápico. Entretanto, penso que este constitui um passo inicial que deverá ser acompanhado de uma maior utilização do método dramático para que os objetivos possam ser atingidos de maneira mais ampla e efetiva.

A psicoterapia realizada por Sarah nos traz uma perspectiva mais animadora para o psicodrama, na medida em que preservou seus elementos característicos e conseguiu atingir suas metas. Trata-se de um caso ilustrativo de um psicodrama bem realizado e bem sucedido. Mostra de certo modo (para aqueles que duvidam da eficiência do método dramático) que um verdadeiro psicodrama, que não abandonou nem perdeu de vista seu método peculiar e seus pressupostos básicos, pode atingir plenamente seus objetivos.

Além disso, o relato de Sarah vem reforçar a importância e a validade da psicoterapia de grupo, já que os resultados obtidos se deram exclusivamente a partir dessa modalidade de psicoterapia. Como sabemos, Moreno sempre atribuiu um lugar de destaque à psicoterapia de grupo, mostrando que o grupo representa a sociedade em miniatura e possibilita que os conflitos e dificuldades das relações interpessoais sejam tratados ao vivo. Apesar disso, o psicodrama individual tem se tornado cada vez mais freqüente e percebe-se hoje em dia, um descrédito em relação à psicoterapia grupal, sendo essa muitas vezes vista como um complemento da psicoterapia individual, como se não fosse prudente atribuir a ela o papel principal no tratamento, ficando melhor colocada como coadjuvante. Muitos psicodramatistas acreditam que é sempre necessário, ou pelo menos prudente, realizar um período de psicoterapia individual para depois inserir o paciente em um grupo terapêutico.

O relato de Sarah mostra, por sua vez, que a psicoterapia grupal psicodramática por si só é capaz de propiciar os resultados almejados pelo psicodrama e que o descrédito em relação à mesma não se justifica, mesmo considerando-se que em certos casos o paciente possa necessitar de uma atenção mais individualizada.

Fica evidente, no relato de Sarah que a dinâmica grupal estava sendo trabalhada, de tal modo que foi possível verificar a presença de alguns princípios básicos do psicodrama — como “o membro do grupo como agente terapêutico” e “o protagonista como representante do drama grupal”— que são essenciais para que o psicodrama grupal de fato ocorra e propicie resultados. Isso leva a uma reflexão: será que os psicodramatistas que, de alguma forma, demonstram um descrédito em relação ao psicodrama grupal, realmente fizeram uso desses princípios quando trabalharam com essa modalidade? Ou será que desacreditaram justamente por não terem apreendido o sentido da proposta moreniana de psicoterapia de grupo? Essa questão poderia ser objeto de uma pesquisa futura para uma melhor investigação.

O relato de Marília, por sua vez, constitui um exemplo de psicoterapia psicodramática individual em que o método dramático se fez presente e os objetivos foram alcançados, ainda que parcialmente. Considerando que Marília ainda estava realizando a psicoterapia e que demonstrou em todo o seu depoimento estar progredindo em direção aos objetivos, os resultados alcançados estão dentro do que é esperado no psicodrama.

O depoimento de Marília é um exemplo de psicoterapia psicodramática individual que não se descaracterizou, mantendo a proposta dramática moreniana. Isso mostra que é possível dramatizar nas sessões individuais e obter resultados satisfatórios. A primeira sessão de psicoterapia realizada por Sarah também serve para corroborar com esta idéia, por tratar-se de uma sessão individual onde o método dramático mostrou-se bastante eficaz produzindo inclusive uma catarse de integração. Muitos psicodramatistas dizem que quase não utilizam a dramatização em sessões individuais e justificam-se através de argumentos como: o de que é muito mais difícil dramatizar neste contexto; que a dramatização não funciona tão bem na psicoterapia individual; e até que o plano verbal pode substituir o dramático sem que haja prejuízos. A experiência relatada por Marília serve para refletirmos sobre a pertinência desses argumentos, já que ela atribuí, em seu depoimento, uma grande importância a presença do método dramático em seu processo psicoterápico, chegando inclusive a deixar transparecer que percebia que o método dramático lhe propiciava benefícios que o verbal não lhe proporcionava.

Os resultados apresentados fazem pensar sobre as conseqüências de uma descaraterização do psicodrama, em que o drama é colocado em segundo plano. Se, ao deixarmos de lado o drama, temos pouca chance de atingimos o que foi proposto por Moreno como meta, então que psicodrama é esse? Será que se está a fazer psicodrama ou simplesmente atribuindo esse nome a uma psicoterapia que utiliza métodos variados e não segue pressupostos teóricos claros? A meu ver, um psicodrama que não atinge sua proposta e não utiliza o método que lhe é peculiar não é psicodrama.

A postura humana do psicoterapeuta se fez presente no relato de todas as psicoterapias, o que faz pensar que esse elemento característico do psicodrama esteja sendo bastante preservado na psicoterapia psicodramática atual. Por que será que a postura humana é mantida enquanto que outros elementos do psicodrama como, por exemplo, o método dramático se encontram mais vulneráveis? Embora não tenha uma resposta definitiva para isso e considere inclusive que tal pergunta pode ser melhor explorada em uma próxima pesquisa, vou esboçar uma hipótese.

A postura humana do terapeuta é um elemento característico, mas não específico do psicodrama, sendo que outras abordagens também a utilizam. Além disso, ela está muito mais associada ao aspecto pessoal do terapeuta do que aos outros elementos do psicodrama. Assim, mesmo ocorrendo uma descaracterização do psicodrama, em que o terapeuta abre mão de recursos específicos como o método dramático e suas técnicas, ainda é possível e mais fácil manter a postura humana, justamente porque essa postura não singulariza o psicodrama. Entretanto, o psicodrama é um todo em que os seus diversos elementos estão interligados e à medida que esses se dissociam, passam a se descaracterizar. Existe uma grande diferença entre a postura humana daquele que realmente faz uso do psicodrama como um todo e aquele que adota a postura humana isoladamente. A postura humana sem respaldo teórico corre o risco de se tornar uma simples conversa entre amigos enquanto que a postura humana apoiada em uma leitura teórica pode em muito contribuir para o avanço terapêutico.

Talvez pela dificuldade em assumir firmemente um determinado referencial teórico e metodológico, como por exemplo o psicodrama, torne-se mais fácil assumir apenas a postura humana de psicodramatista, em que se pode fazer uso da própria pessoa. Nesse caso, entretanto, corre-se um grande risco:o de que a pessoa do terapeuta se sobreponha ao psicodramatista de tal modo que quase não se encontre vestígios do mesmo.

A técnica do espelho ocupou um lugar de destaque em duas das entrevistas, em que foram apontados tanto os efeitos positivos da mesma quanto os incômodos que provocava. Foi possível constatar que a técnica conseguia freqüentemente atingir seu objetivo terapêutico, que é o de possibilitar um melhor reconhecimento do Eu. As demais técnicas não receberam das entrevistadas o mesmo destaque e atenção, o que me faz pensar que a técnica do espelho tenha tido um papel diferenciado nessas psicoterapias. Seria interessante a realização de pesquisas sobre a utilização da técnica do espelho no psicodrama para melhor entendermos algumas questões: Será que este resultado é decorrente de um uso mais freqüente dessa técnica pelos terapeutas? Ou indica um maior benefício propiciado por essa técnica? Ou ainda indique a existência de características específicas destes clientes que justifiquem uma maior utilização ou maiores benefícios?

Esse trabalho resumidamente mostra quatro pontos: 1) é possível fazer psicodrama de verdade seja com grupos ou individualmente e obter resultados; 2) existe sim uma certa descaracterização do psicodrama, que faz com que este nome (psicodrama) seja usado para denominar uma psicoterapia que negligencia o método dramático e não atinge a proposta moreniana; 3) existe uma relação de interdependência entre a utilização do método dramático e a consecução de seus respectivos objetivos; 4) a técnica do espelho ocupou um lugar de destaque nas psicoterapias relatadas e o motivo disso poderia ser elucidado em uma futura pesquisa.

Para finalizar, quero ressaltar que uma reaplicação do presente estudo, com uma amostra mais ampla ofereceria maior segurança quanto às conclusões alcançadas.
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