No tempo de nossos pais e avós, o casamento era mantido muitas vezes às custas de muito sofrimento. Muitos casamentos infelizes eram mantidos em nome da família, da sociedade, dos filhos. A mulher, em geral, era dependente financeiramente do marido e não tinha como se manter ao separar-se. Além disso, se fizesse isso teria que lidar com inúmeros preconceitos. Com os movimentos feministas e a transformação da sociedade, a mulher conquistou o mercado de trabalho e sua autonomia. Com isto, se sentiu mais segura para romper casamentos e buscar relações mais satisfatórias.

Até 1977, no Brasil um casal só podia se separar judicialmente através do Desquite, que consiste na separação do casal e de seus bens, mantendo o vínculo conjugal, isto é, sem a possibilidade de um novo casamento. Em 1977, foi aprovada a lei do Divórcio, que permite romper definitivamente um casamento, e se tornar livre para se casar novamente.

Estas mudanças constituíram um grande avanço e refletem a luta das mulheres por uma transformação de seu lugar na sociedade.

Por outro lado, nas últimas décadas o número de separações aumentou muito. Se antes era raro se separar, com o tempo passou a ser cada vez mais comum. Tenho observado que tanto homens quanto mulheres muitas vezes desistem de uma relação diante dos primeiros conflitos e dificuldades. Não conseguem lidar com os obstáculos e com as diferenças. Criam uma expectativa de que o outro deve atender a todos os seus anseios. Em muitas situações, relatam como agiriam em determinada situação e não entendem como o outro não faz daquele jeito.

No período da paixão, nos misturamos de tal forma com o outro que esquecemos de quem somos. Idealizamos ao máximo o outro e o vemos muitas vezes como solução para todos os males. Quando nos casamos, sonhamos juntos, projetamos um futuro, apostamos no parceiro. Depois, nos deparamos com a convivência do dia a dia, com costumes, manias e atitudes que não conhecíamos direito e, então, começam a surgir os conflitos. Muitas vezes nos sentimos traídos porque o outro nos parece diferente do que imaginávamos, mas nós é que o estamos enxergando com outros olhos. Muitas das características que passamos a enxergar melhor em nossos parceiros e das quais nos queixamos, de certo modo sempre estiveram ali, mesmo que não fosse de modo tão declarado.

Lidar com a quebra de idealização e se deparar de fato com o parceiro com o qual nos casamos constitui uma das dificuldades dos casais de hoje.

Um outro ponto importante a se pensar é que uma relação a dois exige conciliar aspirações, necessidades e desejos individuais e também do casal. Uma equação difícil de se resolver. Muitas vezes, essas aspirações concorrem entre si e não podem ser atendidas plenamente. Afinal, a vida é feita de escolhas. É necessário, então, revezar, negociar, ceder, conciliar e acima de tudo usar e abusar da criatividade.

Para isto, é essencial conseguir escutar o outro e a si mesmo e a partir disso buscar soluções alternativas. É preciso perceber que não se trata de uma disputa para saber quem tem razão, mas sim de somar as forças para buscar a solução mais satisfatória, o melhor caminho para o casal.

Quando o casal tem filhos e se torna uma família, torna-se necessário um novo arranjo. Surgem novas demandas como: educar filhos, equilibrar as contas , dividir tarefas. Por exemplo, é preciso resolver quem leva e busca na escola, quem acompanha no médico e assim por diante. Em função disso, é necessário muita cooperação e criatividade. Se antes um casal ia três vezes por semana ao cinema, talvez agora consiga ir no máximo uma vez com ajuda de uma avó ou babá. Torna-se necessário abrir mão de algumas coisas e conciliar na medida do possível projetos individuais, do casal e da família.

Algumas perguntas para refletir:

1- Como você reage quando percebe que seus planos para um final de semana são diferentes dos de seu parceiro?
2- Como você e seu companheiro lidam com as diferenças de gostos? Por exemplo, quando vão ao cinema, como decidem que filme assistir?
3- Você desvaloriza interesses ou prioridades de seu parceiro quando estes não correspondem aos seus?
4- Que características você observa em seu companheiro que sejam opostas ou muito diferentes das suas? (por ex: um ansioso, o outro muito calmo; um organizado, o outro bagunceiro. Essas diferenças incomodam e/ ou ajudam? De que forma?
5- Que costumes traz de sua família de origem que divergem dos costumes de seu companheiro? Como lida com isso?

Maria de Fátima Novaes Marinho-  Psicóloga, Psicoterapeuta, Psicodramatista há 25 anos.